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Risco

No Brasil, a telenovela é o produto mais cultuado pelas massas, carro-chefe da programação da nossa TV aberta. Impossível negar que a telenovela é cultura popular. Bem ou mal, reflete e dissemina nossos costumes, é ponto de referência em todos os segmentos sociais. Atrelada hoje ao megashow global, a partir da década de 1990, perdeu qualidade. Por que?

As décadas de 1970 e 80 marcam a busca de qualidade da telenovela, quando discutimos uma nova estética: a intenção deliberada de propor uma nova visão, de renovar tudo, de mexer com a cabeça das pessoas com temas e formatos mais arrojados, num claro desafio ao marasmo conservador da ditadura militar.

E, na TV Globo, matriz principal dessa transformação, éramos estimulados a correr riscos, ousar e exercitar novas fórmulas com o claro apoio da direção artística, através do Boni e do Daniel Filho. Ao Boni é atribuída uma frase que define bem o que a TV buscava: “a televisão deve estar sempre um passo à frente do telespectador”. De certa forma resolvíamos muito bem a contradição entre a arte e o processo industrial.

Na década de 1990, depois do “desmanche” do império Soviético, o vitorioso sistema capitalista cunhou o eufemismo globalização, como sugestão de um final feliz para a humanidade unida. A relação entre os países passou a ser priorizada pela ação mercantilista: logo ficou claro, que a globalização tinha base mais econômica do que de interação social ou cultural. E a arte é uma vitrine dessas relações, um espelho dessa gritante infra-estrutura econômica que norteia todos os nossos passos.

A tecnologia envolveu o planeta com uma malha de satélites de comunicações e gerou um megashow onipotente e onipresente que brilha na televisão, com o controle remoto nas mãos, interagindo digitalmente, conferindo ao sistema ares de democracia.

A internet, multifacetada, aparentemente caótica, complementa, a varejo, o show da vida. O mundo virou um hipermercado. A arte, basicamente utilitária, está hoje a serviço dessa ideologia imperial dominante.

Na segunda metade da década de 90 e mais claramente a partir de 2001, o telespectador, bombardeado pelos blockbusters do cinema americano, exibidos fartamente na televisão, ou clicando a internet, buscando respostas imediatas e urgentes, alheios a uma reflexão maior, impacientes, parece anestesiado e disposto a aceitar uma dramaturgia que o estimule permanentemente com fortes golpes, impactos quase a nível físico. As telenovelas passam então, a repetir sempre as mesmas intenções de comunicação, os mesmos clichês: uma novela imita a outra.

A nova cúpula das emissoras de televisão, adéqua-se ao mercado, não está disposta a correr risco nenhum. Em vez de correr riscos e estar um passo à frente do telespectador, a emissora coloca-se a reboque do público, valorizando as pesquisas, nivelando as telenovelas por baixo.

O vilão de um lado, o herói de outro, a inter-relação maniqueísta: um grupo de personagens do bem e outro grupo dos personagens do mal. Não era assim que trabalhávamos antes os nossos personagens: eles tinham contradições internas, dúvidas, eram humanos.

Os personagens de hoje não têm contradição interna nenhuma, são monolíticos, pensam de um jeito só, têm um único caminho. As cenas mais reflexivas foram substituídas por lances fortemente melodramáticos, humor fácil, ação frenética, esquemática, seguindo um modelo único, semelhante ao cinema americano mais comercial.

A avidez de impactar permanentemente, mesmo que seja com truques fáceis, gerou uma dramaturgia que levou o autor a se sentir impossibilitado de conduzir sua escrita, sozinho. Ampliou o número de colaboradores, para criar situações muito envolventes a cada capítulo.

A grande preocupação dos autores não é mais o aspecto estético, mas o pleno envolvimento imediatista, mesmo beirando a inverosimilhança, o implausível. Ninguém quer correr risco: o que importa é impactar para sustentar a audiência.

Via de regra, cercado de colaboradores, o autor já não coloca mais no seu trabalho as suas emoções mais genuínas, e seu estilo pessoal. Pior: grande parte dos autores está conscientemente trabalhando aquém de seu talento. Os muitos diretores dividem as cenas de um mesmo capítulo, que só vai encontrar alguma unidade, na edição. Processo semelhante a uma linha de montagem.

A telenovela sofisticou-se tecnologicamente, e esvaziou o conteúdo temático. Aquele anseio de criar qualidade dos anos 70 e 80 está quase perdido. Alguma qualidade ainda está preservada pelas minisséries, jogadas estrategicamente para um horário avançado, onde é possível correr algum risco.

A televisão digital, interativa, é já uma realidade que proporciona ao telespectador-consumidor, clicar com o mouse na telona e comprar na hora o objeto dos seus sonhos. Nossas novelas logo, logo, serão vitrines para vender muitos modelos de roupa, bijuterias, objetos de decoração, geladeiras. Mas, quem sabe essa interatividade proporcione um diálogo entre a obra e o público, sem perda de dignidade.

Um trabalho feito com preocupação de grande alcance, popular, mas sem fáceis concessões aos clichês por demais explorados, pode conseguir a síntese entre dois pólos aparentemente opostos: a arte e a indústria.

Se o autor/produtor focar o homem em toda sua diversidade, poderá atingir a todos indistintamente. É preciso também ter presente que uma telenovela, atingindo um universo tão amplo e diversificado, tem função e responsabilidades sociais muito fortes.

* * * Quem tem talento real não teme os riscos. Feliz 2009 Lauro.

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