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Psicanálise do Tipo de Personalidade Eneagramático

Felipe Moreno é autor e professor. Coordena o Projeto Letras Criativas destinado ao ensino e à criação de roteiros audiovisuais.

Personagem Patrão

Vamos começar agora a comentar sobre os tipos de personalidade baseados no Eneagrama, estudo da filosofia Sufi e da psicologia transpessoal.

Vamos tomar cada tipo de padrão de caráter como uma forma de compreender sua forma de responder a seu próprio narcisismo assim como em relação ao mundo externo, ao grupo (social-ismo), para usar os termos desenvolvidos por W. Bion (um dos mais importantes psicanalistas do século passado).


Dessa forma, interessa-nos falar de como os impulsos de vida (Eros) se mobilizam em cada tipo de personalidade aqui por nós estudado, sem nos esquecer de como o lado contrário se caracteriza nos tipos, isto é, como o imobilismo se verifica em cada um dos padrões de caráter, geralmente se constituindo numa visão biológica-constitucional pelo aparecimento de uma repetição de comportamentos (neuroses, vícios, tendências mentais, etc.).

Entretanto, como cada um de nós não nasce de geração espontânea, recebemos as influências do mundo externo desde quando chegamos ao mundo material, dessa forma, também vamos procurar tecer as relações dos tipos de personalidade com as pessoas e o ambiente, quais as tendências de comportamento e os estados mentais de cada tipo diante do mundo externo.

Um detalhe importante a ser reflexionado: para apurar os sentidos visando compreender profundamente (de modo mais espiritual até) as formas de pensar, de sentir e de agir dos tipos, é necessário usarmos a nossa capacidade de observação, tanto em relação a nós propriamente, quanto às pessoas com as quais nos defrontamos no dia-a-dia, e, até mesmo, com as personagens que vemos desfilar nas novelas, filmes e seriados.

O poder de observação aliado à intuição é que determina uma vivência profunda sobre os tipos, isto, claro, depois de conhecer aspectos e características de cada um deles, o que passamos agora a fazê-lo.

Aqui, neste texto, escolhemos falar sobre o tipo 8 do Eneagrama, conhecido como “Patrão”. Patrão, porque é briguento, justiceiro, exagerado, protetor, animal sem dono, chefe, líder natural e mestre em soluções. Faz parte de sua natureza ser instintivo, agir agressivamente, usar sua voz de comando e senso forte de controle.

Se fôssemos avaliar a questão dramática do Patrão, poderíamos dizer que ele se mostra dessa forma ostensiva e que age de acordo com a sua verdade, porque, no fundo, luta para ser amado. O seu “eu” tem como dilema interno o hábito fundamental de defesa, isto é, a sua defesa é ir contra os outros, mas, mesmo brigando, ele permanece ligado ao amor e a aprovação alheia.

Importante ressaltar que pelo fato de ir contra os outros, ele mostra uma contradição aparente, como o fato de “brigar para ser amado”. Obviamente que o senso comum não vê dessa forma.

Em princípio, ninguém que receba a agressividade de um Patrão irá pensar que ele deseja ser amado, sobretudo da forma que escolhe para isto. Contudo, psicanaliticamente, isto pode ser explicado a partir dos impulsos de vida e de morte (de acordo com Freud): na medida em que um tipo de personalidade como o Patrão mobiliza intensamente seus instintos para o mundo externo, buscando confronto e rivalidade, ele desestabiliza o seu mundo interno (narcisismo), dessa forma desequilibrando os dois campos dos quais o Ego é regulador: o mundo interior e o mundo exterior.

Desse modo, essa “luta por ser amado”, íntima e aparentemente sem relação com a sua agressividade patente, é que vem à tona. Age compulsivamente e de forma maníaca (este termo sempre que utilizado deve ser compreendido do ponto de vista psicanalítico) de acordo com seus impulsos de vida, que tendem á repetição sistemática para conservar a sua existência diante dos impulsos contrários, que tendem à inação, à indiferenciação da individualidade, ao imobilismo (morte).

Já se disse que morremos desde que nascemos, e isto se comprova através do estudo celular e do estudo do funcionamento mental. O conflito entre impulsos de vida e de morte mostram exatamente esse processo no Patrão.

A história de cada um de nós é formada por uma ação interior (o nosso drama íntimo) que, projetado às pessoas, torna as situações vividas muito mais interessantes e dolorosas. As histórias de ficção também se fazem assim, com drama, e drama se estabelece com um problema que traga ao personagem o famoso conflito, que fornece às histórias o motor do interesse do espectador.

No caso do tipo do Patrão, uma célula dramática interessante para compreender o conflito que se poderia se instalar nesse padrão de comportamento seria pensar que “alguém do tipo Patrão briga com outra personagem porque quer que a verdade (sua, é claro) e a justiça (idem) se estabeleçam”. Temas como poder, luta, justiça, tudo ou nada, podem cair como a uma luva para servir ao tipo mencionado.

Façamos uma correlação de uma estrutura narrativa viável para compreender a trajetória de um tipo de personalidade como este: imagine um estado atual, o início de uma história cujo protagonista é o Patrão.

Esse personagem, por tendência adquirida de seu tipo de caráter, já é propenso ou disposto à luta, de forma que uma situação desestabilizadora seria o encontro de algum motivo ou posição a defender, estabelecendo-se, assim, uma luta ou estado de conflito ou tensão detonado a partir de uma reação tempestuosa que fosse na direção do senso de controle que rege o comportamento desse tipo de personalidade. E um ajuste ou desfecho final para uma narrativa dentro desse padrão seria o estabelecimento final da justiça por meio de uma verdade unilateral. Sim, porque ou o tipo Patrão faz valer a sua verdade, ou ele a aceita de outra forma – e sendo assim, seguramente, alguma coisa profunda o fez mudar.

Esses tipos de personalidade são facilmente encontráveis em filmes western, aqueles do oeste americano, tipo justiceiro que chega à localidade e estabelece a ordem a partir da visão de seu mundo de justiça. Mas também podem dar origem a filmes ligados à realeza e sua inexpugnável forma de conduzir e controlar leis e povos, ou então originar histórias que vão revelar versões do tipo Patrão, como aquele promotor insaciável que adora vencer uma boa briga no tribunal, mostrando a todos aquela “verdade” que só ele tem.

Aliás, é Interessante notar que com o tipo Patrão fica fácil pensar uma história, e, por conseqüência, um roteiro: construir e estabelecer um tipo briguento e disposto a impor a sua vontade e verdade proporciona condições aparentemente favoráveis para se estabelecer um bom drama e, conseqüentemente, uma progressão narrativa atraente.

Não se trata, entretanto, de uma fórmula de histórias para o tipo, todavia permite ver o padrão de personalidade sob um foco mais próximo da realidade específica do próprio tipo e de seu comportamento. E como comportamento é ação, e ação é personalidade, estamos sim é formulando conceitos mais ou menos homogêneos.

Voltando à análise do tipo, podemos dizer que sua ética, isto é a sua percepção interna da verdade é quase que irrefreável, ao passo que a Moral ou aquilo que externamente pode lhe ser imposto é muito menos significativo, em função de seu ímpeto ou volúpia para referendar a sua posição.

O medo de aniquilação existe e é introjetado na personalidade em forma de um objeto persecutório (Melanie Klein, psicanalista austríaca) e se mostra no Patrão a partir de sua tendência à luxúria, aos exageros materiais de consumo. Quando ele se vê numa fase de parca fartura, a tendência é deprimir-se, voltar-se para dentro, isolar-se e em muitos casos dramatizar a sua situação.

Um bom trabalho ou um ganho extra será uma idealização neste caso, e irá mitigar a angústia sentida. Na sua fantasia inconsciente, há uma tendência a identificação projetiva com justiceiros ou com heróis espertos que obtêm vantagens pela força ou pela esperteza. Em muitos Patrões, há uma tendência inconsciente a autodestruição devido aos exageros e à luxúria, características do tipo.

Dessa forma, o superego (instância da personalidade e objeto internalizado) é muito potente, pois cobra do ego auto-afirmação e força em todas as situações de vida, causando com isso fantasias culposas intensas, levando um Patrão a se punir seja pela somatização de doenças, seja em mergulho fundo nas drogas e/ou em jogos de azar.

Atente para esse tipo em ação: alguém propenso à luta, qualquer coisa que o obrigue a agir no sentido de fazer prevalecer a sua verdade ou defendê-la, levará a disputa pela manutenção do seu status quo, ajustando-se, por fim, a aplicação de uma justiça que lhe seja suprema, benéfica, favorável, ou, em última instância, igualitária.

Existe um perigo na compreensão desse tipo e dos outros em geral, e ele reside na estereotipia. Ninguém é tão exato assim como estamos pintando, o que deve ser visto como padrão de personalidade. Um Patrão age convencido e maniacamente disposto a controlar e mostrar a sua verdade, única e inegociável quando além dela outra se disponha a prevalecer.

No entanto, no Eneagrama, os tipos não são estáticos, mas sim, dinâmicos. Eles são condutores de emoções e desejos e estão sempre em intercâmbio com outros tipos. Dessa forma, o tipo Patrão aqui explicado pode ter outras variantes.

O importante nesse estudo e eventual aproveitamento por parte do leitor é saber que um tipo de personalidade ou caráter é sempre coerente com o seu próprio padrão interno, como atenção e estilo intuitivo. E isso, por si só, colide com as formas de estereótipos para as quais podemos nos sentir atraídos.

O que vale mesmo é ver o padrão como um padrão. Um sistema mental que organiza e conserva uma coerência interna de pensamentos, emoções e atitudes. De acordo com os obstáculos que tal tipo terá de enfrentar no mundo, é que determinará sua forma única de agir e reagir frente às circunstâncias da vida.

Em relação ao tipo Patrão nas histórias, ele pode simbolizar ainda uma força a ser vencida, por exemplo. Há outras tantas combinações e funções para o tipo, mas tudo depende da história a ser contada.

Recapitulando então o tipo em destaque: age por instinto, briguento, controlador e solucionador. Gosta de impor suas vontades e verdades, por isso, não raro, ganha antipatias. Mas também sabe manipular pessoas quando aquilo que está no raio de seu interesse pessoal pode perigar. Um tipo como esse tem muito potencial dramático, se for usado em histórias, pode proporcionar amplas condições narrativas para levá-lo a uma trajetória de herói.

Podemos resumir dizendo que um tipo que gosta de brigar e controlar os outros e a coisas, defendendo sua posição e verdade, seguramente poderá se constituir num belo exemplar de personagem de ficção, na medida em que ele se defronta com oposições à sua posição e verdade, o que, para todos os efeitos, garantem a dose necessária de conflito.


Personagem Pacificador

Iniciamos este texto comentando sobre o tipo de personalidade eneagramático conhecido como Pacificador. Ele é o tipo 9 do Eneagrama e tem no seu padrão instintivo a força espiritual manifestada no mundo.

Quer dizer, por estar situado no alto da mandala de nove pontas, a sua posição é a ponta superior do chamado centro instintivo, o que favorece ao tipo Pacificador perceber o mundo e as coisas muito mais pelo corpo e pela facilidade que tem de “passear” por outros corpos e se deixar absorver pelas necessidades alheias.


Este tipo coleciona atitudes e comportamentos, cujas principais qualidades são o sossego e a inércia. Portanto, o tipo tem características de preservação de status quo, acomodação, mediação e passividade, chegando com isso às raias do bom mártir devido à mentalidade rígida, para cuja tendência inconscientemente se inclina.

Podemos observar, sob o vértice psicanalítico, que essa questão é bastante significativa: por ser o Pacificador voltado à acomodação e ao esquecimento de si próprio, os impulsos de morte (thanatos) exercem relativo predomínio nesse tipo de personalidade.

Atraído pela acomodação (nirvana) e passividade, tem fortes inclinações à desidentificação, o que facilita à absorção por outros pontos de vista. Dessa forma, o Pacificador equilibra os dois campos, interno e externo, pois, se é vítima de impulsos desmobilizadores no campo interno (narcisismo), tem grande aptidão por sentir e ver sob os olhos dos outros (social-ismo).

Interessa observar, que esses tipos eneagramáticos, não são na verdade personalidades convertidas em espécies, mais ou menos fechadas em si mesmas feito estereótipos padronizados, mas sim aspectos nos quais o “eu” se mune para defender-se num mundo material desde a tenra infância, fase na qual criou ansiedades e temores e passou a operar por fantasias inconscientes.

Depois, vieram as fases de criação, escola, aprendizado, amigos; momentos em que o Superego foi reforçado (objeto internalizado), e de acordo com esses processos, o tipo inclina-se para este ou aquele tipo de personalidade, num processo de aquisição, momento pelo qual passa a operar as suas defesas de acordo com as nuances do tipo adquirido.

No cinema, existe um conceito segundo o qual “ação é personagem”, de maneira que podemos exemplificar sob a ótica do Pacifista: a ação é o que “os outros fazem” em prerrogativa ao que ele faz, porque funciona mais na “cola” de outro executante que ele propriamente. Diferentemente do que o tipo anterior ao seu, o Patrão, sugeria: “eu faço ou eu controlo”.

Como dissemos, o padrão psicológico do Pacifista está no “esquecimento de si próprio”. Então a questão dramática do Pacificador sugere a posição Hamletiana, tipo: “estou com ele (a) ou não estou com ele (a)– eis a questão”.

Quer dizer, o “eu” fica em cima do muro: por um lado comprometido e por outro lado inseguro, de tal forma que se permite concordar com qualquer ponto de vista, como também não se comprometer com qualquer um deles.

Este é, digamos, o impulso repetitivo, a compulsão persecutória no tipo, sempre posto em dilema entre concordar e não se comprometer. Neste sentido, o tipo claramente mostra uma auto-imagem (sentimento de identidade) relativamente débil, porque não tem internalizado um “objeto bom”, mas sim um superego coercitivo, propiciando sentimentos de pouco valor, indutor da própria inação e passividade que lhe são características.

Portanto, se fôssemos pensar numa célula-dramática para este tipo de personalidade, a mais coerente para ele seria aquela que diz que “alguém do tipo se envolve com alguma coisa que lhe exige comprometimento e, ao mesmo tempo, tem veladamente uma reação contrária a isso, porque, inconscientemente, não deseja comprometer-se”.

Note que este “inconscientemente” está ligado ao objeto persecutório (superego) que na contracorrente induz a impulsos destrutivos, punindo este tipo de personalidade a comportamentos passivos (nirvânicos) como se exceder em comida, álcool e televisão, ou seja, à inação e à acomodação.

Isso reforça àquela idéia já mencionada de alguém pouco centrado em si mesmo porque esquecido de si, ao mesmo tempo em que, paradoxalmente, é centrado em si mesmo para não sair de si e tentar alguma coisa nova que o ponha em risco ou lhe cause estresse. Uma espécie de narcisismo imobilizante.

Essa idéia também pode ser explicada a partir da condição dinâmica dos tipos dentro da própria mandala do Eneagrama. Isso quer dizer que, no caso do Pacifista, quando ele sai para a ação, ele caminha para o ponto 6, o tipo Legalista, cujo modo de expressão é pelo medo, razão pela qual se explica a dificuldade que tem o Pacifista de agir com segurança rumo a alguma ação que seja lhe original e que transforme o estado atual de letargia.

O Pacifista é um tipo mediador cuja característica é encontrar-se facilmente em pontos de vista divergentes, deixando-se absorver pela ótica de outros em dada situação, perdendo, assim, o foco de sua própria fonte, de modo que, quando age em direção a alguma coisa, o medo se instala e torna-se difícil conviver com esse sentimento no decorrer da ação circunstancial.

Por isso rejeita mudanças e ações pessoais próprias. É mais fácil deixar-se levar pelos pontos de vista de outros (ser voltado ao mundo exterior, mesmo que seja de modo superficial). Assim não será preciso tomar partido próprio, e, se houver apoio a algum ponto de vista específico, também é apenas aparente, porque, no fundo, há um sentido de rejeição (impulso repetitivo) ao comprometimento fiel à causa erguida.

Se tomado a partir de um modelo narrativo clássico, o estado atual do Pacificador na história seria aquela posição mencionada acima: ele estaria dividido numa situação entre pontos de vista e/ou sentimentos divergentes, digamos que, indeciso ou hesitante talvez.

Em outro estágio da própria narrativa correspondente a esse tipo de personalidade, alguma coisa vai acontecer a ele, provavelmente oriunda do ambiente externo, uma situação desestabilizadora, por exemplo, que pode pressioná-lo a tomar uma atitude nova ou fora do seu habitual, obrigando-o, neste caso, a desviar-se do caminho seguro ou conhecido por ele.

Outro estágio seria o estado de luta, em que o tipo tenderia a fugir da realidade por diversas formas, não raro se narcotizando de alguma maneira, por não ter posição a defender ou por não saber o que quer dentro das circunstâncias da eventual história.

Já o estado de ajuste na narrativa para o tipo seria então a sua concordância com uma solução final, não significando com isso, certeza, envolvimento ou decisão segura com essa tomada de atitude.

Para esse tipo de personalidade, temas não faltariam para serem abordados. Comuns a muita gente, em razão da identificação com, por exemplo, assuntos ou dramas que falam sobre as escolhas na vida, incertezas, indecisão, amizade, outro mundo, etc. E mesmo se pensarmos no Pacifista diante do quadro até aqui mostrado ele poderia também se ajustar a roteiros que priorizassem personagens-testemunhas, uma vez que a sua adequação psicológica seria aparentemente perfeita, devido à sua característica de colocar-se sob pontos de vista diferentes do seu.

Sem contar ainda as histórias que possam querer sublinhar posições dúbias ou passivas de personagens não tão convictos assim de sua força ou expressão. Mas que por isso mesmo podem vir a se constituir em achados caracterológicos, tornando-se personagens complexos e interessantes de se investigar, criativamente falando.

Interessante notar que os tipos de personalidade eneagramáticos não são unívocos, mas sim multívocos, isto é, nenhum de nós é apenas um tipo e nada mais, mas sim a somatória de todos os tipos cujo resultado apenas ressaltará ainda mais comportamentalmente um determinado padrão de nossa personalidade.

E isso também vale para os personagens ficcionais. O Paficista, então, para todos os efeitos, é aquele tipo de personalidade que age sem convicção do poder de sua opinião ou pensamento, inclinando-o magneticamente a outros pontos de vista e sentimentos acima dos seus próprios.

Mas isso nada tem a ver com humildade, e sim mais com impotência. Numa história, por exemplo, se tivermos o Pacifista como herói ou heroína, ele (a) deverá se converter num (a) Pacifista Acima de Qualquer Outro Personagem. Ou será apenas um personagem secundário ou testemunhal.


Personagem Perfeccionista

Falaremos aqui do terceiro tipo de personalidade eneagramático do centro instintivo da mandala de 9 pontas, o tipo 1. Trata-se então do tipo “Perfeccionista”.

Importa notar que esse tipo de caráter internalizou um “objeto poderoso” se imaginarmos a intensidade de seu superego. Isto porque, a sua natureza se impõe a uma autocobrança e a uma coerção inconsciente tamanha, que poderíamos dizer que este tipo se configura no mais rígido mentalmente de todos os nove tipos, pelo menos em tese.


O nome já diz tudo sobre o padrão psicológico do tipo. Ele transmite arquétipos da natureza da correção, da reforma, da moral e da norma. Pode ser um juiz, um batalhador, um perito, mas, naturalmente, terá desenvolvido uma clara característica de crítico mordaz, mesmo que somente este aspecto apareça de forma internalizada, para ele apenas.

É basicamente neste ponto que queríamos nos referir ao comentar sobre a “rigidez” do tipo. Na verdade, o seu poder de crítica é altamente sugestionável, ora se inclinando para si ora para os outros.

Por ter o seu “eu” autocentrado em um superego altivo e bastante sólido, tem forte vivência narcísea, ao sentir-se “moralmente” melhor do que os outros e protelar a sua ação com medo de errar; isto significa uma vivência para fora (socialista) bastante comprometida com a perfeição do que julga certo para os outros na proporção do seu autojulgamento. No entanto, existe a preocupação com a crítica alheia: “estão me julgando”?

Se o tipo egocêntrico do Patrão relaciona-se com a expressão “Estou no comando” e o do Pacificador com “Os outros comandam, eu apoio”, a expressão que mais se encaixa para a o Perfeccionista seria “Vejo a perfeição em mim, nas pessoas e nas coisas”.

O padrão do Perfeccionista também gira em torno do “esquecimento de si próprio”, o que Guardjeff, o responsável pela ocidentalização do Eneagrama, considerava a raiz do problema existencial dos tipos que se localizam no centro instintivo, o que pode ser simbolizado, ainda, pelo fato de que esses tipos têm no próprio corpo a orientação para a sua posição no mundo e nas situações diárias, com forte tendência a sentir as coisas pelo corpo e perder de vista as necessidades originais que dizem respeito ao profundo do seu íntimo, o que brota como necessidades verdadeiras da essência do seu ser.

Visto pelo viés psicanalítico, o Perfeccionista internalizou um objeto persecutório com potencial altamente bombástico, no sentido de carregar uma “bomba-relógio” programada no bojo de sua personalidade, na medida em que precisa andar sempre sobre o fio da navalha, sob pena de sofrer “apedrejamento” pelos guardiões internos de sua moralidade irrepreensível, caso se “distraia” com perdas de tempo que não sejam produtivas para a obsessão-compulsiva, desenvolvida por sua maníaca forma de ser perfeito.

Retrocedendo no tempo do tipo, quando bebê, possivelmente o Perfeccionista introjetou um objeto bom (a imagem do seio da mãe) e deve ter “pecado” miseravelmente contra tal objeto – e isto pode ser visto segundo Melanie Klein, a notável psicanalista austríaca, como ter odiado tal seio porque este lhe recusou o alimento -, de maneira que, ao descobrir (em nível inconsciente) que o tal seio bom fazia parte de uma coisa só que era a sua mãe provedora, o bebê também inconscientemente, recriminou-se provocando uma culpa que certamente deve ter sido bastante indesejável, a ponto de o bebê precisar novamente da mãe como um objeto idealizado (um continente mais amplo e preparado) para acolher sua identificação projetiva, fruto do “crime” por ter odiado não apenas um seio, mas sim a mãe toda. Como reparação dessa culpa, canalizou o foco para uma conduta correta, para um modo perfeito de ser e ver as coisas.

Com isso, queremos situar onde achamos que se encontra a raiz da culpa no tipo Perfeccionista, uma vez que a sua rigidez mental serve de contraponto ao que julga ser correto, direito e perfeito. Uma posição tão ajustada só poderia receber elogios de um superego austero e implacável, que, ao menor “deslize” da personalidade, não se faz de rogado e pune com uma culpa horrenda digna dos mais ferrenhos déspotas da antiguidade, longe dos quais obviamente o Perfeccionista quer estar a salvo.

É por isso que, paradoxalmente, o tipo ainda pode ser arrastado a um outro campo e tornar-se uma personalidade ambivalente, lúdica, livre de todo o peso, que desponta “longe de casa”, tornando-se por algum tempo aquilo que o seu mais íntimo desejo o desejar, dando vazão às coisas originárias do seu “id”, daquela parte do seu inconsciente que é por assim dizer “rejeitada”, tendo em vista a coerção que o superego impinge à personalidade total do Perfeccionista em matéria de conduta e de atos normativos.

A essência do “esquecimento de si próprio” do Perfeccionista pode ser resumida a uma questão-chave: “sou melhor ou pior do que eles?” Quer dizer, a busca é por uma posição de segurança para o ego, no entanto pelo fato de se “esquecer”, o “eu” do tipo, inconscientemente, tenta se posicionar quase sempre de forma reativa e comparativa às situações e às demandas da vida.

Na base psíquica do Perfeccionista há sempre uma comparação pela própria natureza que ele despertou a partir de sua infância: “sou melhor ou pior que eles?” Afinal de contas, o “eu” do Perfeccionista só vê um caminho correto numa dada circunstância, e é este caminho a que se deve seguir, segundo o pensamento do tipo, pois a diversidade é alternativa que leva ao caos.

Ainda tomando o Perfeccionista do ponto de vista psicanalítico, os impulsos de vida são mobilizados na busca da perfeição, na execução dos detalhes que componham o todo idealizado. Aparentemente, os contra-impulsos (os nirvânicos ou imobilizadores) se voltam contra a própria personalidade, tendo em vista o tirânico objeto persecutório internalizado (superego) na base do tipo em foco. A autocrítica é um terrível censor desse tipo de caráter.

Se os contra-impulsos tiverem a direção do mundo externo ou das pessoas, aumentará a comparação íntima do que é bom ou ruim ou do que é certo ou errado, o que resultará em um nível de ansiedade muito grande, prejudicando a auto-aceitação ou mesmo o sentimento de aceitação em face das pessoas ou do mundo exterior, justamente pelo fato de ter sido mobilizado inconscientemente para lá impulsos de morte com o conseqüente aparecimento da culpa.

A fantasia inconsciente dessa espécie de caráter é uma matriz de objetos persecutórios, de modo que o Perfeccionista, ao se estruturar em uma base inconsciente comparativa do tipo – “sou melhor ou pior que eles?” – tem a tendência de identificar-se projetivamente com modelos idealizados de perfeição (na figura de pais e grandes realizadores), embora por outro lado, devido ao fato de ter uma auto-imagem fortalecida por essa idéia de perfeição, quando não é bem-sucedido em suas ações, paga um preço alto pela autopunição do superego, que lhe impinge grandes doses de raiva, inveja e decepção, avançando para depressões e vícios como o alcoolismo.

Se pensarmos sobre a questão dramática principal do Perfeccionista, veremos que ela está relacionada a um tipo de visão do qual qualquer outra visão ou estímulo do mundo exterior – que seja diferente do “caminho correto” que o tipo segue – tenderá a transformar em caos a “ordem” e a “correção” criadas na base do ego do Perfeccionista (que está guarnecido por uma blindagem e que serve aos propósitos neuróticos do tipo para que ele viva no mundo material e das relações humanas).

Então, uma boa célula-dramática deste tipo de personalidade poderia ser a seguinte: “Um (a) Perfeccionista precisa andar nos trinques porque há um juiz corregedor a seu encalço”.

Há que se concordar que nesta célula-dramática existe um potencial delicioso para se trabalhar criativamente. Afinal de contas, o “juiz corregedor” deste tipo de personalidade pode ser – e na maioria dos casos do tipo o é – o próprio o superego, cuja tirania e exigência proporcionam ao tipo uma moral apolínea.

Cabe lembrar que o superego, segundo Melanie Klien (acima citada), começa a formar-se logo nos primeiros meses de vida, quando o bebê passa a sofrer ansiedades de frio, fome, barulho etc. de onde nasce um objeto persecutório internalizado em sua fantasia inconsciente, sendo sua mãe aquela que pode mitigar os temores inconscientes, constituindo-se dessa forma em objeto idealizado da criança.

Cria-se um jogo pelo qual a fantasia inconsciente do bebê passa a operar por introjeção e projeção de objetos (persecutórios e idealizados), donde se inicia a formação do superego, que na concepção de Freud é decorrência do Complexo de Édipo, vivência pela qual a criança experimenta entre os 3 e 5 anos de vida, a partir do que, então, internaliza no âmbito de sua personalidade as proibições, normas, regras e ideais decorrentes da educação dos pais, professores, e da moral sociocultural.

Essa questão está na base da Psicanálise e pode ser traduzida na figura daquele pai ou daquela mãe que exerceu forte poder de repreensão na criança, criança esta que criou uma sólida identificação para com aquela figura, moldando-se assim o arquétipo elementar de um grande moralista, ou de um forte “juiz corregedor” interiorizado, para cuja moral elevada e irretocável os desejos inconfessáveis do Id (ou, então, de pessoas ou grupos sociais de posições fora de seus padrões morais) não podem fazer frente.

No cinema também temos essa representação. Podemos ver desejos do próprio protagonista Perfeccionista sendo reprimidos, possivelmente originários de fonte externa, ou mais facilmente, serem aqueles desejos personificados em outros personagens, contudo, igualmente reprimidos pela intocável regra de conduta do Perfeccionista.

Já quando pensamos sobre a questão narrativa mais padronizada que conseguimos antever para o tipo Perfeccionista, imaginamos uma história em que o estado atual se daria quando a figura do Perfeccionista está numa situação de equilíbrio e aparente controle.

Um incidente inesperado fora de sua agenda ou programação o desestabiliza e provoca-lhe uma situação de complicação, ao passo que a tentativa de corrigir o que agora lhe parece fora de seus padrões morais demanda-lhe novo fluxo de energia mediante atitudes de severa imposição e correção como num verdadeiro estado de luta.

O estado de ajuste para essa suposta problemática seria o encontro de uma solução que fosse de acordo com os seus princípios que regem o seu código crítico-moral.

Alguns temas para histórias tendo o protagonista do tipo Perfeccionista seriam variantes sobre valores morais, o ponto de vista correto ou a visão correta das coisas, atos perfeitos (de um exímio cirurgião Perfeccionista) , crimes meticulosos (porque o Perfeccionista aqui pode ser um exímio perito em bombas, por exemplo), penas severas, e histórias de juiz com rígidos códigos de moral e de justiça.

Os padrões de cada tipo eneagramático de personalidade apresentam grande consistência de abordagem. Longe da essência, eles se mostram muitas vezes de forma grotesca e caricata. Depende do ponto de vista que os enxergamos.

A verdadeira essência de cada tipo está ligada a aspectos superiores da mente e da emoção, o que é conseguido atingir na medida em que passamos a nos olhar com amplidão, sem negar os vícios, as compulsões e as tendências repetitivas do tipo de personalidade que adquirimos na infância como modo de se defender neste mundo material – mundo contra o qual o ego ou a auto-imagem colide, foge, nega, teme, entre outras coisas. Temos uma essência que quase nunca coincide com o tipo de personalidade que criamos para viver nessa tela de tempo e espaço.

A arte e a ciência servem, no mínimo, como formas de expressão desse estado de coisas. Dessa forma, o “mundo perfeito” do Perfeccionista transparece e nos deixa próximos a uma questão: “somos pior ou melhor que eles, Perfeccionistas”?!


Personagem Dador

Com o fito de tratar do primeiro tipo de personalidade do centro emocional da mandala de nove pontas conhecida como Eneagrama, que atende pelo nome de “Dador”, é que pedimos a atenção do caro leitor.

Neste tipo de caráter reúnem-se peculiaridades muito reconhecíveis de pessoas cuja maneira de sentir e perceber o mundo encontra empatia com o mundo das emoções, sobretudo quando pensamos as emoções em termos de relacionamentos, de troca, de dar e servir ao próximo.


O “Dador” é tido como um bom conselheiro. Muito protetor, está sempre disposto a atender às necessidades dos outros. Amoroso e solidário, gosta de ser útil, de ajudar o próximo. É o ajudante sensível e leal. Verdadeiramente encorajador, sabe dosar seu oferecimento. Prefere dar a receber. Envolvente, pode ser manipulador a ponto de se tornar insubstituível.

Da mesma forma que acontece ao grupo dos tipos de personalidade do centro instintivo ou motor da mandala – vide os tipos “Patrão”, “Pacificador” e “Perfeccionista” já publicados e exibidos neste site -, podemos compreender alguns dos aspectos mais subjetivos dos universos psicológico, psicanalítico, dramático e narrativo que o tipo Dador traz à luz, pelo menos em termos de traços da personalidade adquirida e de seu comportamento no mundo, nas situações e nos relacionamentos.

É necessário dizer, aliás, que a visão crítica da literatura tradicional, como também aquela pertencente à arte audiovisual conhecida no cinema, na televisão e no teatro, tem em comum o olhar para a dramaturgia que esses tipos trazem em potencial, seja na pele de João, Marcos, Carlos, Daniel, ou seja na pele de Maria, Clarice, Joana, Marcela.

Em outras palavras, isto quer dizer que já assistimos na vida cotidiana ou na vida ficcional aos tipos de personalidade eneagramáticos que revelam conjuntos distintivos de personalidade, a partir da expressão de sua subjetividade e no que eles mostram em matéria de motivação, moral e ética.

No caso do tipo Dador, podemos tomá-lo a partir de sua característica peculiar que é praticar o ato de “dar”. Isto constituído na base do tipo tenderá a uma compulsão do ato de maneira crescente e operacional até tornar-se hábito adquirido e motor vivo deste tipo de personalidade no plano inconsciente.

A criança Dador internalizou um protótipo de comportamento em que passou a manipular sentimentos, primeiro junto aos pais; depois, estendendo aos professores, amigos e amantes. A sedução, pois, é uma das suas principais armas, visto que este tipo de personalidade tem amplo trânsito pela via dos relacionamentos, por dar importância extremada às pessoas devido à sua necessidade de ser amado pelo que oferece a eles, como acontece comumente nas conquistas amorosas, aos jogos de sedução.

Mas que não venham contrariar o “Dador” com a ingratidão ou com o não-reconhecimento de suas “prendas”, pois, se isso acontecer, a raiva tomará conta dele (a) e uma grande explosão emocional se verificará, com conseqüências tão funestas quanto imprevisíveis.

A origem do “jogo manipulatório” perpetrado pelo “Dador” provavelmente se deu junto à percepção que ele tinha dos pais e à necessidade do tipo em ter atenção e amor, motivo por que criou o hábito compulsivo de tornar-se o bem desejado nas situações, isto é, dar para ser amado, para ser atendido em suas necessidades emocionais.

A propósito disso, por fazer parte do centro de inteligência emocional, o “Dador” tem na “identificação” com o outro a mola mestra de sua permanência no mundo das relações, pois a forma de operar mentalmente inclina-se à questão típica de seu tipo: “com quem estou me relacionando? Ele (a) precisa do meu auxílio, então de que forma conquistar o seu amor com o meu ato de dar?”

Do ponto de vista freudiano, podemos dizer que o “Dador” construiu um ego cujo “eu” se reproduz em vários “eus”, um para cada pessoa de interesse do tipo, o que o inclina à vida relacional dos sentimentos e dos interesses que possam estar em jogo. Isto significa dizer que os impulsos de vida que mobilizam o tipo estão voltados para fora, para o outro, para o grupo, para cada relacionamento importante criado e mantido pelo “Dador” ao longo de sua vida.

As principais características encontráveis nos “Dadores” mostram que eles são afetuosos, manipuladores, zeladores, salvadores, alimentadores, conselheiros, voluntariosos, dadivosos, orgulhosos, mas, logicamente, não necessariamente possuindo todas elas.

Diríamos que são “marcas registradas” neste tipo de caráter, com alternância e potencialidade entre uma e outra peculiaridade acima assinalada.

No entanto, o aspecto que salta aos olhos é a sua sensibilidade aguçadamente manipulatória que parece estar no núcleo do Dador, ao fazê-lo perceber as carências e limitações das pessoas queridas, o que o coloca então a postos para suprir-lhes as necessidades e desejos, de forma a obter, implícita ou explicitamente, a aprovação e o afeto delas.

Para um roteirista, ter um personagem Dador à sua disposição é o mesmo que poder atribuir características mitológicas do Generoso Pai ou mesmo da Mãe Provedora a um de seus personagens, de maneira que o público possa ver a dinâmica operante no jogo de dar, de presentear, de educar pela troca amorosa.

Sendo assim, podemos afirmar que um personagem deste tipo de personalidade faria alguma coisa ou praticaria uma ação porque numa “segunda intenção” teria o desejo ou a necessidade de receber amor e ser percebido em sua importância. Mas, convém lembrar, esse jogo quase sempre é inconsciente.

Quer dizer, o “Dador” dá para ser amado. Identifica-se com alguém e oferece um “eu” especial para aquela pessoa. A empatia é total e multifacetada, porque para cada pessoa, um “eu” diferente, secundário e amplamente disponível está ao dispor do amado. É como se o “Dador” abrisse uma portinha de seu coração “altruísta” para cada um a quem ama, para que este ocupe o lugar de seus sentimentos e necessidades verdadeiras.

Ainda sobre as peculiaridades do tipo, lembramos que muitos com esse traço principal de caráter nutrem o paradoxo de tentar manipular a troca com o outro, porém sempre exigindo sua própria liberdade. Há, ainda, aqueles que são dependentes do parceiro e que fazem tudo para agradá-lo (a).

Já em termos do que pode interessar a um roteirista ou dramaturgo, a formação do Drama no tipo “Dador” estaria próximo da seguinte idéia, como se um personagem desse caráter dissesse algo assim na sua intimidade:

“Como faço para dar esse amor para alguém que ainda não conheço se não sei se ele (a) vai gostar” – ou então visto numa outra roupagem, o tipo poderia afirmar o seguinte: “eu quero amar você, mas não quero que fique no meu pé porque preciso conservar a minha liberdade de ação dadora”.

Talvez então a partir dessa formulação dramática básica, poderíamos ter o seguinte núcleo ou célula dramática: “Alguém do tipo Dador precisa agradar o parceiro, no entanto deseja a sua liberdade para fazer tudo aquilo que desejar”.

É notável que alguém que tenha vontade de fazer tudo aquilo que deseja necessite se comprometer com alguém de forma a tentar agradá-lo de modo contínuo e compulsivo. Não é a toa que os “Dadores” são chamados de histriônicos, pois é preciso muita “graça” para rir da própria armadilha psicológica na qual se coloca, inconscientemente vá lá, mas não menos contraditória – o que por si só causa estranheza quando descoberto da forma como estamos mostrando aqui.

Uma outra característica notável no tipo em foco, seguindo uma linha freudiana, está no fato de que a “repressão psicológica” é o artifício utilizado pelo “Dador” quando seu ego necessita defender-se. Ou seja, a defesa psicológica da qual se utiliza faz da repressão de idéias, sentimentos, percepções e eventos em desacordo com o seu verdadeiro “eu”, uma maneira prática e habitual segundo a qual “escorraça” para o porão do inconsciente tudo aquilo que pareça inadequado à expressão do sentimento ou da necessidade verdadeira que brota do fundo de sua alma. Como resultado, deixa apenas transparecer aqueles outros “eus” criados para servir de adequação aos seus planos de afeto para com seus “amados”.

Convém acrescentar que todos os tipos de personalidade têm qualidades inferiores e superiores em potencial, isto é, deixando a sua essência para trás, os tipos adotam um modo mais “material” para viver e se ver no mundo, de onde nascem as defesas psicológicas do ego, o qual, segundo Freud, é a instância mediadora entre o mundo interior e exterior do ser humano.

Assim sendo, ao longo de uma vida, um manancial de atitudes e comportamentos éticos e morais consagram os tipos em suas qualidades inferiores e mais raramente com as superiores. Isto está de acordo com a filosofia da evolução espiritual segundo a qual é errando que se chega a um lugar de acerto.

Uma idéia correlacionada que também encontra exemplo no pensamento freudiano é a da formação da própria civilização humana, segundo a qual no âmago da psique humana os impulsos de morte disputam sua prevalência com os impulsos de vida – o que transportado para a visão dos tipos de personalidade, pode mostrar o conjunto de aspectos comportamentais oriundos dos tipos de caráter adquirido versus aspectos elevados da personalidade, os quais devem sintetizar a essência de valores e princípios espirituais da mais efetiva grandeza.

Numa história ficcional, por exemplo, este modelo dualístico poderia ser descrito na expressão de um personagem ao longo do seu arco psicológico, do qual conheceríamos o conjunto característico pessoal do seu tipo de caráter, de maneira a revelar em atos, palavras e comportamentos suas qualidades inferiores (da personalidade adquirida antes da história) e, muitas vezes, por se tratar de ideal autoral, deixar entrever as sutis qualidades superiores da personalidade enfocada, tendo em vista as mudanças e aprendizados verificados ao fim de sua história.

E por falar em narrativa, voltamos ao tipo de personalidade “Dador”. Se imaginássemos uma narrativa particular ao tipo, um estado atual para o ‘Dador” seria ele (a) estar numa situação de aparente tranqüilidade, porque se sente amado (a) pela pessoa amada.

Uma peripécia significativa seria em um momento em que ele (a) sofreria algum desafio, ou teria a atenção mobilizada para algum obstáculo correspondente à sua relação amorosa.

Já em um estado de luta nessa possível estrutura, o “Dador” tentaria equilibrar o “eu” verdadeiro com os “eus” secundários e assimilados, uma vez que há um conflito em jogo agora, na base do qual o personagem “Dador” faria revelar suas necessidades ou sentimentos verdadeiros e não “falsificados” em função de seu hábito de agradar os outros.

Por fim, um estado de ajuste na situação pessoal do “Dador” poderia ser seu reposicionamento no conflito, afirmando o seu orgulho (outra característica do tipo) em face de sua importância para o outro.

Para todos os efeitos, o orgulho do “Dador” é o seu pecado capital. Em busca de sua essência, ele teria de rumar no sentido contrário, ou seja, ir ao encontro da humildade genuína, percebendo que o seu orgulho lhe mostra o seu desejo por importância, por ser amado à custa de seu hábito compulsivo de dar.

Sugestões com temas para histórias com esse tipo de protagonista abrangeriam histórias de amor, de camaleões, de manipulação, de sedução, de sacrifício, ou de supermãe, esposa, pai ou marido, e também aquelas histórias cujo “ethos” percorreria os altos valores humanos, como o altruísmo e o amor superior.

Como vimos aqui, as possibilidades de configurar um tipo de personalidade eneagramática permitem transitar também por sua subjetividade com maior propriedade, uma vez que há uma coerência no padrão de pensar, de agir, de sentir, de se defender, enfim, de sua expressão no mundo e, ao pensarmos na ficção, no espaço cósmico das narrativas.

Finalizamos este estudo dizendo que ao acendermos os holofotes sobre a subjetividade do personagem e de seu padrão de caráter, a figura demiúrgica e operante do autor pode parecer ser menos sentida. Pelo menos hipoteticamente. E, se assim o for, temos quem sabe uma outra forma de constatação do efêmero na ficção: a transitoriedade dos atos característicos de determinados tipos de personalidade, porque, sem estes, não pode haver humanidade reconhecível pela grande maioria espectadora da vida, do mundo, da arte e das personas, a ponto de nos sentirmos observadores viajantes no tempo e no espaço de nossas tão caras e conhecidas ilusões.


Personagem Desempenhador

Nesta oportunidade, vamos comentar sobre o segundo tipo de personalidade eneagramático do centro emocional da mandala chamado “Desempenhador”. Trata-se de um tipo que pelo próprio significado do nome aponta para o desempenho e para a ação, determinando assim uma imagem positiva no mundo materialista, pois o principal capital que possui é a sua capacidade de execução.


Na infância, o “Desempenhador” adquiriu este traço muito provavelmente pelo fato de ser instigado a executar ações que resultavam em elogios, de modo que o tipo internalizou a idéia de que desempenhando um bom papel, seguramente seria aceito e amado pelos familiares e meio social. O sucesso, neste caso, mesmo que gerado por uma fantasia onipotente, estaria garantido.

A propósito, vale acrescentar a noção psicanalítica de que uma idéia fortemente aceita pelos pares, geralmente encontra continente no âmago de pessoas ligadas à imagem. E como o “Desempenhador” pode ser tido como um títere narcísico, digamos assim, seguramente guardou no disco do seu subconsciente uma ‘gravação musical’ recorrente, da qual pôde lançar mão à medida que foi crescendo e percebendo o quanto o mundo aprova a performance e a imagem de pessoas de sucesso.

O “Desempenhador” faz parte do centro emocional do Eneagrama, de maneira que este tipo age por intermédio do eixo das emoções e dos sentimentos, embora, paradoxalmente, ele embote seus sentimentos em favor do trabalho, daquilo que realiza e, por conseqüência, do que isso reflete na sua imagem de executor e líder natural.

Esse tipo de personalidade é aquele que dificilmente irá admitir que tenha necessidades emocionais, porque a ação no seu dia-a-dia é medida pela imagem de vencedor que transmite, portanto, não coaduna com um sentimento de qualidade ‘duvidosa’ que nasça do fundo de sua alma, porque vencedor precisa mostrar uma força nobre, protótipo de quem não pode perder tempo com ‘ninharias emocionais’.

Esta questão ganha interesse quando vista do ponto de vista da psicanálise kleiniana. É que criando uma imagem de vencedor, o tipo “Desempenhador” identifica-se com esta idéia de tal modo que projeta ideais e fantasias de cunho narcísico neste novo continente.

Como o seu “eu” real fica aquém desta imagem projetada, resulta que não serve de continente para lidar com os sentimentos verdadeiros, nascidos ou gerados pelo seu “eu” mais profundo, com isso determinando um duo formado por um ‘agente falso’ que desempenha performances grandiosas e um ‘agente real’ que se esconde nos porões do inconsciente sempre querendo desmascarar aquele outro.

Através dessa dinâmica, o que ocorre é que o tipo cria o hábito do auto-engano, sempre negando seus sentimentos verdadeiros em prol daquilo que faz para iludir-se, isto é, dando vez apenas à sua personalidade que chegou ao mundo para vencer à custa de muito trabalho.

Já se disse que a mente cria tudo o que quiser, e isto é totalmente válido para o “Desempenhador”, que acredita na imagem que criou. Prefere ser reconhecido pelo que faz e ser coberto de glórias por isto. Se fôssemos reduzir a sua função em face ao seu padrão psicológico, isto é, de acordo com a forma que pensa e manifesta o seu comportamento comum, poderíamos dizer que ele é aquilo que executa no seu trabalho.

Este tipo de personalidade é um dos mais recentes dentro do conjunto de estudo do Eneagrama, e foi identificado como “workaholic”, aquele mesmo tipo oriundo da revolução industrial e que ganhou status até mesmo nessa era da informação, por sua dedicação extrema às tarefas e a todas as formas de atividades laboriosas, em que seu sangue e alma se misturam ao resultado de sua luta pela realização profissional.

Além de workaholic, outras características típicas do “Desempenhador” são ligadas ao prestígio, à alta performance, à motivação, à criação, à liderança e à concretização de seu status. Lembrando ainda que o tipo possui a tendência de auto-enganar-se em relação à identidade. “Sou o que faço e não o que sinto”.

Em termos eneagramáticos, a matriz dos tipos emocionais está ligada à identificação, isto é, os tipos desse centro de inteligência, nos quais o “Desempenhador” se enquadra, estão ligados àquilo que os outros acham deles ou como eles os vêem. Portanto, a imagem de Narciso para o “Desempenhador” é perfeita, pois, o tipo, tal qual o mito, mergulha na imagem projetada.

E isto no que se refere à ficção pode representar uma função dramática que tem potencial para gerar correspondência com o público, na medida em que aquilo que se faz ou se pensa que se é, tem peso gigantesco para um personagem que tenha o traço psicológico de um “Desempenhador”.

Em tevê ou no cinema, ação também é personalidade, por isso podemos afirmar no caso do “Desempenhador” que o que ele faz reflete a sua certeza de que seja o melhor possível. Em outras palavras, a questão aqui do tipo, como do próprio centro emocional de inteligência da qual ele faz parte, está na identificação de sua própria imagem, o que também pode traduzir-se no seguinte: “sou o que faço e não o que sou”.

Como já foi mencionado, neste tipo psicológico, o personagem “identifica-se” com a imagem de um vencedor e passa a sentir-se como se fosse esse “outro”.

Assim sendo, podemos sintetizar que a formação do drama no “Desempenhador” está relacionada ao personagem do tipo que quer fazer uma coisa para agradar a alguém que ainda não notou a sua imagem de vencedor, ou então o personagem do tipo quer distância de seus próprios sentimentos porque percebe que eles importunam as suas tarefas ou a execução do seu trabalho.

O “eu”, neste caso, é medido por desempenho no trabalho, e ter sucesso e prestígio compensa o abafar do “eu” real em favor dessa imagem forjada de vencedor, mesmo porque, assim, o tipo pode se transformar naquilo que as pessoas querem que ele seja ou faça.

Neste raciocínio, o “Desempenhador” também pode ser visto como um “Camaleão”, que se transforma naquilo que os outros querem que ele seja. O argumento é simples nesta visão das coisas: “o mundo valoriza os campeões, os grandes vencedores. Logo, eu tenho de evitar o fracasso”.

Então, uma célula dramática correspondente a esta idéia poderia se resumir em um personagem “Desempenhador” projetando uma imagem propícia ao que faz, para aparecer aos olhos alheios, mas que se vê contrariado por uma situação ou por outra personagem em relação à imagem projetada.

Tomando uma narrativa peculiar ao tipo, por exemplo, um estado atual comportaria alguém desempenhando um papel de valor no trabalho. Mas que será posto à prova pela pressão de concorrentes ou contra a sua imagem de vencedor, entrando então em luta através de uma ação que será levada à exaustão a fim de conservar o status quo e o possível prestígio, até resultar num estado de ajuste, quando então há uma nova transmudação para uma imagem vencedora (mesmo que agora apenas reconhecida para si mesmo) de ser o melhor naquilo que faz.

O “Desempenhador” pode apresentar no seu íntimo uma preocupação com a segurança do que o dinheiro pode comprar. Quer dizer, ele tem convicção de que o dinheiro compra segurança. Ao mesmo tempo, pode ter sentimentos de pavor de ficar incapacitado e impossibilitado de trabalhar.

Dessa forma, a sobrevivência emocional estará vinculada aos rendimentos, e muita atenção é destinada ao acúmulo de bens e posses. Como resultado, o seu valor pessoal estará associado ao valor material. Nesta linha, tenderá a auto-enganar-se projetando uma imagem de opulência: casa suntuosa com um bom endereço, viagens caras, roupas de estilista.

Na contramão, a perda de bens pode ser uma grande ameaça à sua vida. Se tiver tempo útil sem agenda de trabalho, isso muito provavelmente produzirá nele grande ansiedade. Se sua carreira não obtiver promoção, ele questionará o próprio valor.

No trabalho, a preocupação com a sobrevivência leva a uma busca tenaz e sistemática de lucros. E um relaxamento só advirá depois da próxima transação, ou da próxima promoção, ou do próximo aumento de salário.

Uma síntese dramática dessa idéia poderia conter o seguinte: “Alguém rico e empreendedor vê-se perdendo bens materiais e se desestabiliza emocionalmente porque acredita que ele é o que possui”. Não perdendo a oportunidade de humor, alguém espirituoso poderia pensar que um sujeito assim pensa ser uma espécie de patrimônio ambulante!

Já numa conversão em situação real teríamos, por exemplo: “Um alto construtor de renome está em franca decadência. Na sua construtora, certo dia, ele recebe a notificação de ação judicial que pretende confiscar o prédio onde está localizada sua construtora para garantir pagamentos da dívida.

Arrasado, ele dá seus bens como garantia e vai para outro lugar sem dinheiro algum. Porém, recomeça a vida em um novo trabalho, dá a volta por cima e reabre um novo negócio sob condições ainda melhores”. Assim é a mente de um “Desempenhador” voltada ao empenho e ao sucesso.

Algumas sugestões de histórias com o tipo admitiriam enredos de campeões em vários segmentos, histórias de êxito e de comportamento de sucesso materialista da sociedade atual, tramas de sedução, imagem de juventude, inteligência e produtividade, entre outras possibilidades.

Como se vê, o “Desempenhador” pensa que é aquilo que faz e projeta no mundo e na sociedade. É para isso que ele se desdobra. O seu valor, assim, é assumido em razão de sua ação e imagem de competência no estudo ou no trabalho.

Com traço carismático, sensual, muitas vezes camaleônico e com grande capacidade de execução, assim é o tipo visto da forma mais externalizada. Mais próximo à essência, no entanto, o “Desempenhador” se aproximará do que é de fato, da verdade de seu ser, e não apenas uma imagem projetada no mundo social.

Vendo sob uma lente espiritualista, a idéia de imagem de sucesso não significa mostrar um aspecto ilusório criado por uma mente que se engana, pois tudo que a cercaria seria apenas projeção dessa mente enganosa.

O mundo da essência, todavia, não admite engano, portanto a idéia de imagem de sucesso deve corresponder à fidelidade do ser verdadeiro cuja mente sabe que o sucesso real é revelar o atributo mais elevado da personalidade. No caso do “Desempenhador”, a honestidade para com si próprio.


Personagem Devaneador

Tratamos nesta oportunidade do terceiro tipo de personalidade eneagramático do centro emocional da mandala dos tipos de personalidade.

Também conhecido como Romântico Trágico, o “Devaneador” constitui um padrão bastante interessante para efeito de desenvolvimento de um protagonista que contenha estofo para viver uma história audiovisual, se pesarmos ser ele dono de um caráter especialmente complexo no que tange às suas emoções profundas e motivadoras de desejos e sonhos muitas vezes contraditórios.


A propósito de sonhos e devaneios, este tipo tem forte inclinação a ansiar sempre o melhor fora de seu alcance palpável, isto é, idealiza pessoas, situações e momentos agradáveis, pois acredita que o que vive ou sente não é o ideal ou está longe de fazê-lo feliz.

Do ponto de vista psicanalítico, o “Devaneador” foi uma criança que se sentiu abandonada ou que teve um sentimento de perda irreparável. Provavelmente sem a presença dos pais (mesmo que presentes podem ter sido ausentes) para servir de continente aos anseios e emoções da criança “devaneadora”, ela cresceu vinculada ao sentimento de perda iminente, por isso ansiando ideais complementares para um fantasioso desejo expelido do ego.

O tipo ainda pode se subdividir em aqueles que são hiperativos, ansiando por competições na esfera do relacionamento a dois, ou ainda serem “sofredores crônicos”, chegando às raias do temerário modo de sobrevivência, à custa de um círculo vicioso do qual a perda e a retomada podem fazer parte do habitual comportamento.

Importa dizer ainda que a “inveja” está por detrás do comportamento do “Devaneador”. É esta paixão mais universal que o conduz à arena das relações, mas de modo latente ou quem sabe ainda agindo de maneira subliminar.

Dessa forma, o que o tipo faz ou como ele age tem como pano de fundo a presença insidiosa de sua paixão característica, que ao exercer tal preponderância, impulsiona o tipo à vida íntima e social, bem como à própria sobrevivência física.

O “Devaneador” apresenta inclinações românticas, melodramáticas e individualistas. Mas, além disso, tem também tendências artísticas, místicas e elitistas. E como foi citado, a inveja é o seu pecado capital. Ela refere-se geralmente à comparação com outras pessoas, e isso também pode ser explicar por que a identificação, como acontece também aos tipos “Dador” e “Desempenhador”, vincula a atenção do “Devaneador” a pessoas, coisas, imagens, sentimentos e idealizações de várias naturezas.

É a identificação com o mundo exterior que faz o “Devaneador” desejar atenção, normalmente, à custa de dramatizações exageradas nas quais sobressai seu papel de vítima do mundo ou como o maior sofredor que pode existir na face da terra.

Por relativizar seus profundos sentimentos de perda e de abandono à necessidade de atenção externa, o “Devaneador” tem um núcleo narcísico altamente concentrador, em torno do qual os desejos e impulsos do ego giram como se formassem um satélite.

Mas, por outro lado, esse tipo de narcisismo é compensado pela necessidade que o tipo tem de atenção externa à base de identificações idealizadas (ou devaneadas), de maneira que os impulsos de vida gerados no inconsciente do tipo são voltados para o grupo, para o mundo exterior, resultando em um dado equilíbrio entre seu narcisismo e seu social-ismo, para usar termos de Wilfred Bion (psicanalista inglês morto em 1979).

Sobre o ego do “Devaneador”, vale ainda acrescentar que ele cria uma imagem de que tudo custa muito para ser realizado ou alcançado. Um personagem desse tipo, por exemplo, pode possuir um bem, entretanto ele ainda não é o melhor, porque o melhor está longe ou lá adiante de seu nariz, inalcançável, distante, apenas e tão somente tocado por seu sonho ou romantismo trágico.

Aliás, trágico no sentido dramático do termo, de infelicidade no seu factum – e se ainda se quiséssemos batizar esse romantismo trágico com termos mais recentes, diríamos tratar-se de uma lei de Murphy tão infalível quanto à derrota já antevista pela mente automática do “Devaneador”.

No que se refere ao drama, o “Devaneador” poderia ter sua questão dramática reduzida a “não tenho o que me faz feliz”. Neste caso, um personagem deste tipo no cinema, cujo valor estético abrange o comportamentalismo – ou a forma atuante do personagem em movimento -, faria ou tentaria fazer coisas para atingir o inalcançável, e, como isso se tratasse de um hábito gerador de pensamentos ilusórios, seria um personagem obcecadamente sofredor, repetindo atitudes geradas no seu inconsciente.

Aliás, o tipo “Devaneador” é considerado pelos especialistas na área como o tipo que mais sofre dentre todos os nove principais traços de caráter que fazem parte do Eneagrama.

É possível ainda extrair uma célula do ponto de vista dramático que se encaixaria perfeitamente ao “Devaneador”: “alguém do tipo idealiza algo de muito valor para si, mas vê-se contrariado porque não é aquilo que imaginou, ou não acontece da maneira como esperava que acontecesse, passando a ter então um comportamento fora dos padrões comuns”.

E seria este comportamento “despadronizado” com base em seu exagerado dramatismo ou dentro de uma reação emocional própria desse tipo de personalidade, um interessante problema a ser discutido numa eventual história. Por exemplo: “Por que aquilo que se quer conseguir precisa ser conseguido às custas de um exagero no comportamento, ou, de outro modo, por que é necessário ter uma mudança de padrão de comportamento a fim de se mostrar um genuíno personalismo?”

Seria o caso aqui, por exemplo, de um personagem vaidoso que no auge de uma conquista, em vez de se comportar dentro de uma conduta social recomendável perde a compostura para interpretar um “novo personagem dramático”, tudo com o pretexto de ser real, verdadeiro, genuíno e apaixonado.

Os casos românticos e trágicos geralmente têm essa credencial particular ao tipo “Devaneador”, um tipo psicológico de natureza emocional que projeta na situação um desejo profundo de emocionalidade em seus desejos.

Interessante notar, entretanto, que, mesmo ao se ter sucesso com aquilo que é desejado, no caso desse tipo de personalidade, não se pense que ele (a) se dá por satisfeito (a). Longe disso. Como num jogo de repetição, um novo devaneio se cria em torno de um objeto, e então se dá o reinício do mesmo processo de infelicidade por não se ter aquilo que não está ali em sua posse imediata e atual.

Esse é o círculo vicioso do “Devaneador”. A propósito disto, vale ter em mente o funcionamento do transtorno bipolar de personalidade, em que há alternâncias entre euforia e depressão, características bastante peculiares ao “Devaneador”.

Em resumo, podemos dizer que neste tipo psicológico o personagem introjeta idéias, costumes, modos de vida, comportamentos de pessoas ou grupos bem-sucedidos e desejáveis como padrões de beleza ou de felicidade para ele.

Como já dissemos, os tipos emocionais têm o hábito existencial do tipo, digamos assim, da “identificação”, e no caso do “Devaneador”, ele se mira em padrões de beleza ou de felicidade de pessoas e grupos bem-sucedidos.

A visão de mundo do “Devaneador” pode ser sintetizada como “algo está me faltando e os outros devem possuí-lo; deixaram-me na mão”. Com esta visão, é natural que sua atenção se volte para as pessoas em busca de amor e reconhecimento.

Se fôssemos arriscar a questão narrativa do “Devaneador”, pensaríamos num estado atual em que um personagem do tipo vive uma situação aparentemente concreta, mas a sua atenção está na idealização de um outro fato ou de um bem desejado.

Uma situação desestabilizadora seria então a ocorrência de um rompimento forte em sua vida, estabelecendo uma perda ou abandono, provocando no tipo profundas reações emocionais o que ensejaria um novo estado, em que o personagem alteraria os seus sentimentos e/ou comportamento, levando-o a uma ação não-convencional.

O estado de ajuste nesta questão se daria no momento da volta ao círculo vicioso do tipo, isto é, o retorno à idealização de novos interesses, recomeçando tudo de novo pela busca que começa a se formar no desejo ou no ato de sonhar acordado para alcançar a matéria volátil do inalcançável objeto de felicidade.

Alguns temas comportariam a história desse tipo, por exemplo, amores ou sonhos impossíveis, inveja, renúncia ao sofrimento, competição renhida, quebra de regras, dentre outros tantos possíveis.

Como todos os tipos de personalidade eneagramáticos, podemos verificar contradições, vícios, comportamentos, estilos de atenção e de intuição, paixões e pecados, ou enfim, traços característicos a cada padrão de personalidade já estudado e delineado pela psicologia transpessoal, no caso aqui, batizado de Eneagrama dos tipos de personalidade.

Na via oposta das vicissitudes do tipo, podemos encontrar a equanimidade como fonte original da essência do tipo “Devaneador”. É a velha questão do autoconhecimento que prega um retorno à essencialidade do que somos, e isso só é possível quando a materialidade do visível é posta sob a luz da verdade que diz que o espírito antecede a matéria, e que, portanto, somente valores espirituais é que possuem a consistência do real – quer dizer, real no sentido de Real mesmo, eterno, indivisível e substancialmente vivo e perene.

Em suma, O “Devaneador” é o romântico trágico, o artista genial, o duque fino e especial, e acima de tudo o alguém que sofre pelo que ainda não conseguiu, porém, mesmo conseguindo o desejado, passa a sofrer por não mais querer o que tem.

Como se nota, uma contradição cabal acontece no âmago do “Devaneador”, qual um digno faquir que estará sempre pronto a buscar o inalcançável até o instante em que conseguir interromper esse seu círculo vicioso.

Entretanto, para que esse padrão seja interrompido ou modificado, será preciso exercer a observação de si até poder alterar e adotar uma nova postura mental, isto é, se o “Devaneador” perceber interiormente, nas engrenagens de seu automatismo, como se dá essa roda viva girante da interminável busca pelo inacessível, ele conseguirá um feito milagroso para qualquer autor inspirado: escrever a sua história e mostrar o quanto é “doentio” ser um romântico, o quanto é “trágico” exagerar as emoções. Será que haverá público e dramaturgia que resistam a esses ingredientes?


Personagem Longevidor

Com este texto, entramos na esfera intelectual do Eneagrama, na qual vamos tratar do primeiro tipo de caráter batizado aqui de “Longevidor”, ou aquele que “observa de longe”, buscando não se envolver emocionalmente com pessoas e fatos.

Este tipo intelectual é conhecido pela sua capacidade lógica e cerebral, preso à paixão da avareza, e a sua condição cognitiva pode estar então relacionada à paixão por uma espécie de retenção de saber, de conhecimento.


Em termos de persona fica fácil ver o “Longevidor” como um professor vestido com uma camisa axadrezada e enfeitado no rosto por grandes óculos de aros quadrados. Claro que se trata de uma visão estereotipada, mas, como estamos pensando em termos visuais, o tipo que mais se enquadraria visualmente nesse padrão de personalidade seria este.

Quando criança, o “Longevidor” deparou com uma ‘ruptura’ emocional e, à feição do que ocorre com o tipo “Devaneador”, sentiu-se abandonado em suas demandas emocionais, criando, assim, um distanciamento através do qual pôde, por sua vez, aparelhar recursos mentais pelos quais elaborou mecanismos para lidar com sua solitude emocional.

Ou, de outra forma, na infância, a criança defendeu-se da forte intrusão familiar, na qual estava implícita uma forte carga emocional contra a qual procurou defender-se. Para isso, criou uma “distância emocional” o que acabou limitando-o por um lado e o favorecendo por outro, ao aparelhar a sua mente para reter e elaborar sentimentos e emoções e separá-los em compartimentos.

Esse procedimento, mais tarde, torna-se mecanismo habitual do “Longevidor” e lhe serve como base comportamental para “fugir” de relacionamentos e envolvimentos que o pressionem emocionalmente.

O “Longevidor” apresenta características de alguém centrado na cabeça, portanto, é um racionalista, um tipo lógico e previsível. Possui também uma hipersensibilidade relacionada a um nível baixo de tolerância à dor e também a um temor de ser rejeitado.

Essa hipersensibilidade pode ser sentida por uma sensação de fraqueza ou vulnerabilidade, avançando até uma forma sensível de lidar com o mundo objetivo.

O tipo “Longevidor” pode acrescer a uma personagem características que modelam a sua capacidade cerebral de ver e analisar as coisas. Portanto, pode conter numa só personalidade traços de observador, investigador, racionalista, filósofo, condescendente, calmo, delicado e aparentemente insensível por estar à parte dos sentimentos, embora paradoxalmente contenha dentro de si um forte traço hipersensível.

Todos esses traços apontam para um tipo esquivo e que está sempre em contato com seus pensamentos e distanciado do mundo efervescente das relações humanas e emocionais.

Entendendo que este tipo de personalidade faz as coisas de longe e distanciado dos sentimentos, podemos avançar na compreensão de que ele está vinculado à consideração interna.

Quer dizer, está sempre em contato direto com pensamentos – analisando, julgando, examinando e questionando -, de forma que em vez de priorizar a consideração externa relacionando-se abertamente com pessoas, volta-se automaticamente à consideração íntima envolvido em seus pensamentos e análises racionalizadas.

Essa “consideração interna” da qual falava George I. Gurdjieff (sábio russo morto no século passado), é a que está no centro da preocupação principal dos tipos de personalidade do centro intelectual da mandala, onde se inclui o “Longevidor”.

A preocupação do “Longevidor” poderia ser descrita como uma espécie de koan (espécie de sentença paradoxal e que busca alertar para uma compreensão maior sem o uso da lógica): “Antes só do que sozinho com alguém”.

Em outras palavras, o “Longevidor” tende a retrair-se incondicionalmente para o mundo mental e ficará encolhido emocionalmente a menos que seja despertado para a consciência de si e consiga romper o círculo vicioso de sua personalidade do tipo esquizóide.

A apatia e a esquizoidia podem ser visualizadas mais claramente quando identificamos a questão dramática do “Longevidor” e que pode ser compreendida a partir do “desaparecimento público” do “eu” atrás de uma imagem, digamos, minimalista do tipo; isso porque nele existe um temor de perdas significativas ou de que pessoas irão invadi-lo e quem sabe lhe tomar algo precioso.

Aqui reside a fixação cognitiva do tipo, da qual falou Cláudio Naranjo (psiquiatra chileno), e que está ligada à retenção e à auto-suficiência geradas pela mesquinhez, ou, como foi mencionado, pelo minimalismo do “Longevidor”.

Então, uma célula dramática viável para um protagonista “Longevidor” seria: “Alguém do tipo reluta em dar alguma coisa que lhe é muito caro, mas vê-se pressionado a ceder, passando então a defender o que é seu e/ou o seu espaço privado”

Vale notar que nesta célula dramática está implícito um conflito próprio do “Longevidor”, relacionado à sua paixão (avareza) – e como já dissemos em outra oportunidade, todos os tipos eneagramáticos giram em torno de uma paixão especificamente, embora os chamados pecados capitais estejam traduzidos dentro de nós em diferentes maneiras e escalas.

Já do ponto de vista narrativo, tomando o padrão psicológico do “Longevidor”, poderíamos ter um estado atual em que o personagem do tipo estaria em isolamento em uma dada situação, ou estaria numa vida reclusa, à feição de um ermitão.

Uma situação desestabilizadora ocorreria quando algum acontecimento provocasse seu envolvimento emocional ou o ameaçasse, provocando, assim, uma situação limite em que fosse pressionado a agir emocionalmente diante de algo ou alguma coisa. Dessa maneira, não seria possível na circunstância atual ser plenamente resolvida pela forma racionalizada do “Longevidor”, “longe” do caldeirão das emoções.

Um estado de ajuste para essa jornada heróica do tipo seria a normalização dessa situação através do retorno (eterno?) ao isolamento no castelo de sua mente onde repousam defesas para viver emoções apenas de maneira retrospectiva, distanciado dos protagonistas que o envolveram emocionalmente em tal peripécia, e restringindo-se a uma montagem ou edição mental daquilo que se vivenciou intensamente.

Enredos com o tipo caberiam, por exemplo, em histórias de forasteiro, ou do estranho que se refugia em algum lugar. A célebre novela “O médico e o monstro”, de Robert Louis Stevenson alude ao tema da dupla personalidade: enquanto “médico”, o personagem desta novela apresenta traços do “Longevidor” na medida em que ele se “esconde” de um mundo social para adotar uma postura que aos olhos dos outros denota retração e estranhamento.

Histórias de inventores e pessoas avarentas (a peça de Moliére seria um ícone da paixão do tipo) ou de auto-suficiência também caberiam a esse tipo de personalidade.

Embora os traços do “Longevidor” mostrem aparentemente pouco potencial dramático, em função de sua característica de se afastar das situações emocionais, sua forma de ser e de viver mentalmente pode se constituir num achado, pois o tipo quando “desperto” de seu automatismo, pode adquirir traços positivos de outro padrão de personalidade, que nesta série de textos foi o primeiro a ser abordado (o “Patrão”).

Isto se deve porque no sistema eneagramático dos tipos de personalidade há um intercâmbio móvel de posições e de tomadas de pontos de vista; no caso, o “Longevidor” dirige-se para o ponto de vista do “Patrão” quando motivado por uma auto-segurança psicológica, ao passo que em situações de estresse sua direção modifica e atinge outro tipo de personalidade, que ainda será objeto de estudo dessa série.

O que se entende, então, é que todos os tipos têm uma configuração estática tomando por base sua psique. E nisto está implícito uma paixão central fixada por traços cognitivos específicos, somando-se, por outro lado, um modo dinâmico pelo qual a bipolaridade – situação segura e insegura – também é determinante porque há uma nova tomada de ponto de vista conforme a posição do tipo no diagrama; ou seja, para que outro ponto ou tipo ele se inclinará quando estiver seguro ou inseguro psicologicamente.

Além disso, há também a influência de outros elementos na composição do padrão de personalidade de um tipo, como, por exemplo, a vizinhança com outros dois tipos de personalidade (vide a configuração do diagrama da mandala), mas sobre isso vamos deixar para comentar em outra oportunidade.

O que vale reter – como o faria um “Longevidor” – é que no diagrama das personalidades existem fatores móveis e intercambiáveis não apenas para contextualizar os tipos como temos feito nessa série de textos, mas, também, em termos de transcendência da personalidade; e foi esta a nossa referência no caso do “Longevidor”, que pode suplantar seus vícios mais automáticos e se “apossar” das virtudes do “Patrão”, conquistando aptidões não peculiares ao seu caráter central, tais como liderança, assertividade, autodomínio, entre outros traços positivos e particularidades a este último tipo de caráter citado.

Convém atentar para a idéia de que alguém que se sente seguro à distância de outros pode limitar o desenvolvimento pleno de sua exteriorização, como é o caso do “Longevidor” preso aos seus mecanismos psicológicos recorrentes; ao passo que alguém mais assertivo, com boa dose de reflexão e comunicação pode ser o mesmo “Longevidor”, mas agora dotado de características importadas de seu ponto de conexão (como o é o tipo “Patrão”), valendo-se então de um ganho substancial em sua vida.

Pode-se ter ainda um personagem “Longevidor” com suas próprias características evoluídas, por exemplo, com um cérebro capaz de sistematizar fórmulas, estudos, planos ou projetos, ou então como um brilhante pensador ou notável psicanalista, pois os recursos peculiares do tipo estariam desenvolvidos plenamente.

No fim, caberá ao autor saber como fará uso desse manancial arquetípico, para que leve adiante a construção de um personagem com um determinado padrão de personalidade.

Variantes e fusões de traços podem ocorrer ao infinito, pois sabemos que uma personalidade recebe influência de vários fatores para ser o que é. Talvez resida aí a chave de um bom personagem: mesclar o padrão psicológico de seu caráter com aspectos multifacetados do que observamos dos seres humanos. E sendo este um ponto crucial da vida do autor, ele estará agindo feito um “Longevidor”, o qual se afasta das emoções para observar com a sua mente arguta, analítica e espreitadora sua própria vida e a de outros seres humanos.


Personagem Legalista

Trataremos aqui do segundo tipo de personalidade do centro de inteligência intelectual do sistema conhecido por Eneagrama dos Tipos de Personalidade.

O tipo é conhecido por “Legalista”, mas nos círculos de estudos do Eneagrama também pode ser encontrado o nome de “Patrulheiro”. No entanto, optamos pelo primeiro nome a fim de ajudar o leitor na compreensão e fixação dos nove tipos de personalidade eneagramáticos, respeitando uma nomenclatura relativa às iniciais de cada tipo e de acordo ainda ao centro de inteligência a que pertencem.

Veja a representação:

  1. “Tipos P”: Patrão, Pacifista e Perfeccionista – pertencem ao Centro de Inteligência Instintiva ou Motora.

  2. “Tipos D”: Dador, Desempenhador e Devaneador – pertencem ao Centro de Inteligência Emocional.

  3. “Tipos L”: Longevidor, Legalista e Latitudinário – pertencem ao Centro de Inteligência Intelectual.

Ainda não escrevemos sobre o tipo “Latitudinário”, que será objeto de nosso próximo estudo, sendo que agora passamos a refletir sobre o tipo de “Legalista”.

Este tipo de personalidade está centrado no medo, isto é, sua maneira de expressar-se na vida e em sua contingência gira em torno do medo e de suas variantes como a dúvida, o questionamento e a desconfiança.

Pode haver, ainda, dois tipos de “Legalista”: o chamado “fóbico”, cujo padrão de comportamento vincula-se ao medo típico pelo o qual o encolhimento ou a fuga do objeto temido pode ser reconhecido no tipo; ou, na trilha oposta podemos encontrar o “contra-fóbico”, cujo modo de transparecer o medo é por seu encobrimento através de um enfrentamento diante do perigo, real ou imaginário, enfrentando o seu medo com o próprio medo disfarçado de coragem.

Podemos dizer que o tipo é um “Legalista” por sua forma de se conduzir no mundo, sendo leal e vinculado ao pensamento ordenado ou regido por leis que buscam razões seguras para a sua atuação diante de pessoas e coisas.

É por isso que podemos entendê-lo como uma espécie de caçador de indícios perigosos ou suspeitos em ambientes e pessoas, erguendo-se a um patamar no qual prevalecem idéias ou questionamentos que visam estabelecer uma seqüência lógica de eventos à sua própria segurança.

Na imaginação do “Legalista” pode haver um circulo paranóico que reproduz o medo em suas variantes mais bizarras, podendo ir de um medo de sair à noite a um temor de ver um monstro concretizado a partir das sombras furtivas de uma árvore.

Obviamente que, neste caso, trata-se do tipo fóbico cuja paranóia apossou-se dele de tal forma que somente um tratamento de choque poderá demovê-lo de ver coisas perigosas onde não existam.

Falamos da dúvida no “Legalista” como uma característica, e, por ser ela cognitiva, podemos entender que, quando criança, o tipo reagiu à perda da fé (segurança) permitindo o início de um círculo vicioso em torno da coragem, justamente para suplantar a dúvida (covardia) ou a falta de fé.

Na verdade, o medo é a base que vincula uma dependência às regras e à autoridade protetora, uma espécie de simulador da certeza da fé no “Legalista”, visto que se trata de um tipo com características mentais céticas.

Falando em pessimismo como marca de sua personalidade, podemos emendar dizendo que a desconfiança é o seu par predileto. Portanto, devido a esses traços, o “Legalista” constitui-se em excelente “advogado do diabo”.

É também protetor dos desvalidos, assim como um fazedor de rebeliões, porque na base de sua personalidade age a projeção como mecanismo de defesa inconsciente, cujo principal traço característico é atribuir a outros culpa e justificativas por provocarem nele, “Legalista”, a ansiedade e a insegurança.

A causa está no medo, base motora do tipo, que desencadeia imagens e emoções que não encontram respaldo na psique do “Legalista”, fazendo com que a consciência do tipo projete para fora do ego aquilo que lhe infunde temor, insegurança ou dúvida.

É fácil reconhecer isto quando um indivíduo age dessa maneira por não lidar com frustrações. Não aceitando ser frustrado ou tendo sido negada a sua reivindicação aparentemente justa, o sujeito, com uma raiva justificada cuja base é o medo contra-fóbico, reage imputando ao objeto frustrante toda a culpa pelo seu estado.

Ou seja, a reação contra-fóbica do medo tem como base a vitimização, e é este o traço principal que diferencia o “Legalista contra-fóbico” do “Patrão”, outro tipo que tem como característica a agressividade diante daquilo que lhe pressiona o ego. (ver texto já publicado neste site).

Vale compreender ainda que o “Legalista” é um tipo mental, e, como tal, vive muitas coisas em sua mente. Assim, trata-se de outro tipo que considera internamente, isto é, dá muita importância (inconsciente, é claro) às coisas fabricadas por sua mente, razão pela qual pode se distanciar da verdade ou da realidade objetiva das coisas – da forma como elas são de fato e sem o investimento de possibilidades imaginárias ou ilusórias.

A expectativa também pode entrar aqui como um fator imaginário e deturpador da mente cética do “Legalista”, que irá prever o pior em algum evento do qual existe alguma esperança de resultado satisfatório; ou, de outra forma, fantasiando possibilidades negativas ou irreais, por elas ainda não terem sido concretizadas na realidade objetiva ou fora de sua consciência, em relação às suas prementes expectativas diante da consecução de seus projetos.

Como todos os tipos de personalidade eneagramáticos, o “Legalista” tem a sua contradição básica que pode dar origem à formação do drama no tipo, como, por exemplo, neste caso do tipo fóbico: “quero poder sentir-me seguro em um lugar que aparentemente me é inseguro, ou quero livrar-me do medo ou da dúvida que me persegue aqui com você ou nesse lugar”.

Já uma formação do drama no “Legalista” contra-fóbico poderia respeitar o seguinte: “desejo enfrentar você ou essa situação para não sentir medo, ou quero que os furos que vejo na situação ou nos seus argumentos desapareçam e dêem lugar à certeza”.

Como este tipo inclina-se habitualmente para a consideração interna, uma questão dramático-filosófica paradoxal do tipo koan poderia ser formulada assim: “questiono e questiono; por isso, duvido”.

Através desse tipo de preocupação mental do “Legalista”, é possível chegar-se à conclusão de que ele tem um pensamento lógico e que, numa forma saudável de estímulos, tende a se constituir no próprio pensamento científico corrente – que busca certezas através de persistentes questionamentos vindos de todos os lados de uma questão.

Visto de uma forma existencial, diríamos que é como se o “eu” do “Legalista” sentisse a segurança como uma meta inalcançável ou intransponível devido à mente cética que cultiva habitualmente, o que pode alimentar sua própria neurose ou paranóia.

Metaforicamente, seria ter sempre à mão uma escada para fazer a dúvida subir e à medida que ela fosse subindo só permitisse haver ação efetiva rumo à concretização de algo em foco quando não houvesse mais nenhum degrau a ser sobreposto.

Buscando uma célula-dramática típica para o “Legalista”, teríamos: “alguém do tipo desconfia dos motivos de outra (s) pessoa (s) que, investido de autoridade, cobra-lhe submissão e responsabilidade, gerando com isso mais dúvida e ansiedade no tipo”.

A essa idéia também repousa em fenômeno comum encontrado na infância do “Legalista”: desconfiado da autoridade materna ou paterna (ou os dois juntos), a criança “Legalista” irá crescer pondo em xeque tal autoridade, e isto está ligado à certeza das coisas que busca insistentemente devido ao medo básico norteador de seu tipo de personalidade e grande fomentador de seus questionamentos viscerais.

A propósito disso, depois de crescer contestando a autoridade do pai ou da mãe, o tipo tenderá a fazer uso da projeção dessa postura junto as outras figuras autoritárias conhecidas, como o chefe, o político, o professor, etc.

Já quanto à questão narrativa do tipo, poderíamos descrevê-la partindo de um estado fóbico e atual do personagem “Legalista” em algum lugar sobre o qual ele coloca o seu olhar suspeito ou desconfiado.

Neste caso, qualquer lance desestabilizador em sua personalidade partiria de um indício de perigo nesse lugar, muitas vezes só presente em sua imaginação.

A luta que ele enfrentaria aconteceria por pressões inesperadas que exigissem decisões práticas do “Legalista” (um de seus entraves mais comuns é o agir natural, sobretudo num movimento de estresse como este exemplificado), por exemplo, num provável empecilho de fugir desse lugar.

Já o ajuste à situação poderia ser qualquer modo de o “Legalista” se ver livre desse momento de perigo (real ou imaginário), quem sabe fazendo-o enxergar coisas que não conseguia ver, ou fazendo aceitar determinadas regras que recusava aceitar, ou mesmo fazendo-o adotar uma postura que estivesse na contramão de seu traço antiautoritário frente a tais circunstâncias. Isso tudo respeitando o padrão psicológico uniforme do tipo “Legalista”.

Temas de histórias para o tipo podem falar de dramas que envolvam riscos e perigos, luta contra autoridades, defesas dos oprimidos, personagens do tipo “oh dúvida cruel!” e dramatizações de estados fóbicos, entre outros.

Para o roteirista, um personagem do tipo “Legalista” pode ter muito interesse dramático na medida em que apresenta um conjunto dinâmico de inquietação intelectual (não é à toa que ele faz parte do centro de inteligência intelectual do Eneagrama).

Este aspecto coloca em evidência uma questão sutil porém interessante: através de sua predisposição ao medo e por conseguinte à desconfiança e à duvida, um personagem “Legalista” pode desencadear subtemas potenciais da história resultante de seu traço cognitivo característico em torno do questionamento das coisas, o que pode ser de grande valia ao conteúdo dramático da história.

Um personagem cético, medroso, desconfiado, rebelde, protetor dos fracos, sem dúvida, carrega em si mesmo uma bomba-relógio programada de período em período para explodir em atitudes apocalípticas e vitimizantes.

É interessante para o roteirista ter em suas mãos personagens que sejam emocionalmente predispostos a esperar masoquisticamente pelo pior, ou em “ver” coisas perigosas ganharem tons e formas monstruosas (imagens cinematográficas), ou ainda reagir intempestivamente contra autoridades, em defender os mais fracos – e tudo isso é parte da psique do “Legalista”.

Sugiro ao leitor então um exercício com esse tipo: tome essas características citadas e tente você mesmo (a) encontrar uma personagem “Legalista” visto de seu ângulo pessoal. Certamente, você criará um representante que poderá iluminar pelo menos algumas dessas características citadas em relação a esse tipo de personalidade, causando, assim, identificação direta com o espectador, uma vez que todos nós temos dentro da gente esses traços, ainda que em proporções diferentes, e isto se deve ao fato de que necessitamos nos sentir seguros nesse mundo “perigosamente ameaçador”. E aí vai arriscar? Não deixe que “medo” do Legalista o (a) paralise!


Personagem Latitudinário

Enfim, chegamos ao tipo de personalidade “Latitudinário”, com o qual terminamos essa série de textos sobre os tipos eneagramáticos de personalidade, esperando, com isso, ter ajudado na compreensão de cada padrão de caráter básico, pelo menos do ponto de vista da conhecida configuração personalista atribuída por sufistas, cientistas da mente e estudiosos do Eneagrama.

Cabe ratificar que os nomes utilizados para os tipos de personalidade nessa série de textos foram escolhidos digamos dentro de um esquema deliberado que batizamos de “PDL”, ou seja:

  1. o “P, que corresponde aos tipos instintivos (tipos Patrão, Pacificador e Perfeccionista – ler textos já publicados neste site);

  2. o “D” que corresponde aos tipos emocionais (tipos Dador, Desempenhador e Devaneador – ler textos já publicados neste site);

  3. o “L”, que corresponde aos tipos intelectuais (tipos Longevidor, Legalista e Latitudinário – os dois primeiros já publicados neste site). *

Essa categorização, em tese, facilita a compreensão inicial dos tipos de personalidade eneagramáticos, propiciando um entendimento mais ajustado do que seja cada tipo em função não apenas de seus traços cognitivos, mas também em relação ao seu respectivo centro de inteligência e de como essa relação revela significativamente as peculiaridades dos tipos.

É o caso do tipo aqui em foco, o “Latitudinário”. Este título revela, pelo menos implicitamente, uma largueza de possibilidades de compreensão. E esta largueza está diretamente ligada ao tipo “Latitudinário”, na medida em que ele abrange em suas inclinações peculiares necessidades de abranger múltiplas opções de ação em sua vida corrente. Este padrão mental de viver busca “obstruir” o canal por onde inexoravelmente situações dolorosas ou frustrantes possam atrapalhar seus planos e escolhas prazerosas e otimistas.

Vale ter sempre em mente a razão metapsicanalítica que possibilita a compreensão lógica do sentido do “eu” se “apropriar” de um tipo de personalidade com finalidades de sobreviver neste mundo: a partir do abandono (ou distanciamento) da essência do ser em sua infância, em decorrência de seu ingresso na dinâmica civilizatória do mundo material, o que irá exigir adaptação e redirecionamento para as estruturas sócio-educacionais vigentes, o ser humano perde contato com aquilo que é verdadeiramente essencial em sua personalidade.

Este processo é conhecido mitologicamente como “Queda” (a mais famosa “Queda” é aquela cometida pelos nossos pais ancestrais, Adão e Eva, e que resultou na queda de estado a partir, digamos, de uma ‘desobediência edênica’).

Sendo assim, o “Latitudinário”, assim como todos os outros tipos de personalidade eneagramáticos, vive vestindo uma máscara arquetípica pela qual se mostra ao mundo não como é de fato, mas sim como acredita ser, pois dessa forma pensa estar sendo verdadeiramente ele próprio, se, é claro, tal pessoa estiver de costas para o seu mundo interior e desconhecer que tais hábitos e padrões de personalidade só se ajuntaram a ele devido a suas tendências e formas de viver na infância. Daí pode advir a pergunta: mas, então, o autoconhecimento pode mudar a dinâmica da pessoa em relação á sua personalidade adquirida?

A resposta talvez nem seja afirmativa em todos os casos, pois depende de que maneira esse autoconhecimento penetra nas camadas mais interiores do ser, a ponto de transformar padrões habituais de sua mente pessoal; e estes padrões, na maior parte das vezes defensivos, acabam por se tornar mecânicos a fim de servir às neuroses típicas do complexo da personalidade atuante e dominante do ser.

Uma mudança efetiva, neste caso, passaria por um trabalho pessoal de identificação do tipo de personalidade, somado a uma forma de atenção redobrada para os atos mecânicos gerados pelas defesas do ego e também um trabalho de sensibilização e auto-observação através do qual a atenção possa se voltar à realidade presente na detecção das formas ilusórias encontradas pela persona para prevalecer-se sobre o mundo e as pessoas em seu entorno.

No caso do “Latitudinário”, diríamos que uma posição saudável de sua “máscara” é revelar-se repleto da seiva da positividade – isto se entendermos como positividade uma forma de vida construtiva através da qual procedendo com otimismo e vendo sempre o lado prático das coisas podemos elevar a auto-estima em busca da realização de planos e projetos nascidos de idéias e percepções cujo combustível são as motivações emocionais que indicam uma certeza intuitiva e que movimenta a fé pela concretização do que se pretende fazer.

No lado oposto dessa visão de positividade, isto é, de uma posição não-saudável da máscara do “Latitudinário” no que diz respeito a não desperdiçar nada do que seja prazeroso fazer, diríamos que há a tendência de fabricar “uma leva de sonhos” possíveis de serem realizados, ou de serem “todos eles” realizáveis e que, portanto, nada deve ser descartado da mente, pois tudo leva ao prazer e, sendo assim, gulosamente deve ser “digerido”.

Quando criança, o “Latitudinário” possivelmente inclinou-se à variedade de distrações, diversificando, assim, sua atenção a interesses múltiplos por um sem número de possibilidades de “encantamento”, padrão que sedimentou um terreno propício à “gula” pela multiplicidade de possibilidades futuras e prazerosas. Para todos os efeitos, o “Latitudinário” é um tipo de personalidade que apresenta características joviais, por assim dizer.

Pode se constituir em fornecedor de idéias criativas; dotar-se de uma “eterna juventude” ao gosto de um Peter Pan; tenderá ao regozijo das coisas boas da vida em escalas sempre crescentes, portanto assumindo o viés de um “epicurista” adepto respectivamente ao maximum de prazer e ao minimum de sofrimento.

Dessa forma, ele pode ser visto como um irremediável otimista que pode adorar aventuras amorosas e, quando intelectualizado, também aventuras ideológicas, bastante atraído por um modo gourmet de vida, haja vista a sua “gula”, paixão central que orienta a expressão do “Latitudinário” para a vida.

Este tipo personalidade é próprio de muitos comediantes, se se pesar que nele exista a tendência de levar a vida “brincando”. Como faz parte do centro intelectual do Eneagrama, inclina-se à “racionalização” como meio de defesa psicológica. Desta forma, ele irá racionalizar suas falhas e faltas buscando justificativas para suas escolhas e ações na vida.

Isto posto, podemos resumir as características do “Latitudinário” dizendo que ele é um racionalizador para as coisas sérias da vida, transformando-as em associações graciosas, criativas, como se dentro dele operasse um complexo mental ativado por idéias generalistas com base em um divertido e impessoal jogo de entretenimento associativo.

Um tipo de personagem com esse padrão de personalidade poderia agir não só como um bufão, mas como um engraçado personagem sempre disposto a divertir-se diante das inúmeras possibilidades que sua mente projeta no mundo.

Já na contramão da diversão, um personagem “Latitudinário” poderia estar “neurotizado” por uma moral coercitiva – lembrando que o Eneagrama não é só um mapeamento estático de características afetivo-cognitivas, mas também um concerto dinâmico onde uma orquestra de traços de caráter executa músicas em outras paragens, e, no caso do “Latitudinário”, ele toca a “sua” música no teatro do “Perfeccionista” (ler mais sobre o tipo neste site), ponto para o qual se inclina assumindo seu ponto de vista quando se encontra numa condição de estresse.

Em suma, o “Latitudinário” opta pela continuidade de coisas prazerosas e divertidas (está centralizado na mente) que acaba engendrando para dar conta ao seu narcisismo. Dessa forma, o tipo tende a fixar-se na questão existencial, assim como os tipos “Longevidor” e “Legalista”, da “consideração interna”, isto é, inclina-se a exames, avaliações e julgamentos produzidos dentro de sua mente, reduzindo, deste modo, um olhar de real preocupação pelo outro, como G.I.Gurdjeff (filósofo russo) chamou de “consideração externa”.

Como se trata de um ponto integrante do centro de inteligência intelectual da mandala eneagramática, o “Latitudinário” possui um padrão de personalidade cuja forma admite um “eu” que tem muitas atividades e alternativas diante das circunstancias; são idéias geradas em sua mente em profusão, e a extensão de sua mente, se fosse possível mensurar, seria medida por aquilo que dá prazer ao tipo, assim como na alternativa do que fazer sem perder o gosto das coisas – e obviamente na mão contrária do tédio, da dor, da depressão, ou mesmo da estagnação mental.

Uma célula dramática do tipo bem característica ao “Latitudinário” seria: “Alguém do tipo é colocado em situação de rotina e limitado a possibilidades criativas, razão pela qual perde o entusiasmo e decide recomeçar em outra coisa”.

Visto do ângulo da formação do drama no “Latitudinário”, este “eu” poderia querer realizar aquele “lance bacana” que somente começou mas que não consegue terminar, ou, de outro modo, poderia desejar correr de um lugar ou trabalho rotineiro que não lhe traz qualquer prazer.

Psicologicamente falando, um personagem “Latitudinário” irá racionalizar o seu desconforto por não levar a cabo uma atividade importante ou responsável, iniciando, assim, várias tarefas ao mesmo tempo, refugiando-se no seu poder mental de ter idéias para tudo. Já quanto a uma questão narrativa para o “Latitudinário”, um estado atual seria alguém do tipo colocado em uma situação de prazer ou excitação mental, quando então haveria um ponto desestabilizador relacionado ao interesse na tarefa que realiza motivado por um fator externo ou interno.

Um estado de luta nessa questão seria o tipo se voltar a uma ação mobilizadora de sua atenção para uma multiplicidade de afazeres, em favor do prazer e contra a dor ou medo, até que, num estado de ajuste, pudesse então retornar à segurança de uma situação de aparente tranqüilidade, graça ou otimismo.

Sugestões de temas para histórias do tipo compreendem, por exemplo, histórias de aventuras, jogos prazerosos, eterna juventude, comédias amorosas, conquistas, etc.

Podemos dizer que o tipo de personalidade “Latitudinário” apresenta características bem próximas daqueles excitantes anseios do roteirista, que, mergulhado talvez em perspectivas visionárias, poderá gerar um personagem muito interessante, comunicativo e alegre, quem sabe até um tipo fornecedor de idéias dentro de alguma corporação, para a qual ele pode tornar-se imprescindível.

Digo isto porque um personagem repleto de idéias é sempre mais interessante de se desenvolver do que aquele tipo mais instintivo ou emocionalmente reagente, uma vez que se abrem amplas janelas para ele comunicar um conteúdo mental do roteirista em relação a temas, matérias e posições ideológicas que possam ampliar a reflexão do seu público.

Na verdade, todos os tipos eneagramáticos tratados nessa série de textos têm em comum características observáveis em todos os seres humanos constituintes de personalidade ou caráter. Uma vez que se conheçam os padrões de cada tipo de personalidade, mais fácil fica escrever sobre ele quando investido em um personagem de ficção.

O tipo “Latitudinário”, por exemplo, sugere atores que tenham características juvenis, alegres, expansivas ou comunicativas. É muito comum no cinema americano, onde encontramos uma gama diversa de personagens universais, termos atores representando seu próprio tipo de personalidade no filme. Não há outra explicação mais lógica do que esta: atração por semelhança. Existe um bom estudo sobre isto escrito por Thomas Condon**.

Escrever personagens e histórias exige do roteirista um olhar especial para dentro de cada tipo de personalidade, e os tipos padrões comentados nessa série podem ajudar a conhecê-los de pontos de vista diferentes como o psicológico, o intuitivo, o comportamental, o dramático e o narrativo. Foi essa a nossa tentativa com esses textos.

Em outra oportunidade, buscaremos ampliar esses conhecimentos escrevendo sobre os subtipos e sobre as conexões dinâmicas dos tipos eneagramáticos. Sinceramente, esperamos ter podido contribuir um pouco na elucidação desses caracteres tão importantes para o roteirista que escreve ficção como para o simples espectador, porque, em última análise, é o para o conhecimento do ser humano que caminha a humanidade e a arte audiovisual.

Felipe Moreno é autor e professor. Coordena o Projeto Letras Criativas destinado ao ensino e à criação de roteiros audiovisuais.

** The Enneagram Movie & Vídeo Guide – How To See Personality Styles In The Movies, de Thomas Condon, Metamorphous, Press, 1999, Portland, Oregon.

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