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O caminho das pedras, por Newton Cannito

Newton tem aquilo que um roteirista chamaria de physique du rôle: ar de nerd, humor ácido e uma cabeça que não para de disparar pra todos os lados onde apontam os rebeldes redemoinhos de sua farta e desvairada cabeleira. Escreve (e dirige!) comédia com Sidney Magal, novela, auto ajuda e drama político conceitual com título estranho para Sergio Bianchi; se auto proclama bollinador (do inglês bullying ou do português bolinar?), curador, mas também doutor em cinema. Fala de deus, de amor e de política em seus posts nas redes sociais, como atuou quando foi nomeado secretário do audiovisual (quase ministro!): agitado, com naturalidade e sem se achar… O que ele se acha mesmo, é um suburbano.

Seu pai lhe avisou: “Cuidado que cinema é coisa de rico… Você já viu anúncio no jornal pedindo cineasta?”

A boa notícia pro pai do Newton é que, agora, tem quem ande por ai desesperado atrás de um roteirista, como se ele fosse um deus…

E se Newton fosse um deus … bom, seria um deus fabulador. Com vocês, o próprio!


ABRA: Primeiro foi o Núcleo Criativo, certo? Conta um pouco do projeto que você emplacou já na primeira chamada pública do prodav03 e como essa linha de edital foi evoluindo nas suas sucessivas edições.

Eu tenho a FICs – minha empresa – há anos, bem antes dos Núcleos Criativos, antes mesmo de ser Secretario de Audiovisual do Minc. Se você olhar, meu primeiro livro teórico (“Manual de Roteiro”, escrito com Leandro Saraiva) já era um livro da FICs. E junto com eles realizamos uma Oficina de criação de historias para Cidade dos Homens. Isso foi há mais de dez anos. Sempre idealizei a FICs como uma empresa de criação de histórias. FICs é Fabrica de Ideias Cinemáticas. Mas FIC é também o nome para Fan Fiction, o fenômeno de histórias que são recriadas pelos fãs. Meu objetivo sempre foi conseguir criar obras que tenham esse poder. Meus próximos projetos são assim.  E outro objetivo sempre foi ter uma empresa que valorize o autor-roteirista.

Para isso temos que atuar elevando o roteirista típico (que no Brasil está precarizado) à categoria de autor-roteirista, alguém que tem algo a dizer e pode comandar uma equipe criativa. Seja como showrunner (atuando também na direção), seja apenas como roteirista-chefe, em igualdade de condições com o diretor e produtor.

O objetivo inicial da minha empresa foi criar as condições para eu mesmo ser isso. O que convenhamos, não é fácil. Só agora estou conseguindo. Em paralelo criar condições para outros roteiristas já consagrados terem mais poder criativo. E por fim, formar novos autores, roteiristas que saibam realmente comandar a equipe criativa.

Mas é claro que o projeto da empresa só conseguiu realmente se firmar com duas realizações dos últimos anos: a viabilização do seriado “Unidade Básica” e a premiação no Núcleo Criativo, produções que ocorreram em paralelo.


Com esses recursos consegui criar estrutura fixa que precisa para uma produtora  criativa: um bom executivo para negociações, advogado, e equipe fixa de roteiristas.


ABRA: Qual foi, ao teu ver, o fator determinante no teu projeto de Núcleo Criativo pra tua seleção, tendo em vista que a tua empresa não era uma proponente “nota 10” e sim uma produtora “de roteirista”?  

O debate sobre apoio ao Desenvolvimento de projetos surgiu junto com a organização da ABRA (na época, ainda , A.R. e A.C). Aos poucos fomos conscientizando o mercado.

Eu sai da vice-presidência da A.R. para ser Secretario do Audiovisual no Minc. Foi um período curto, mas lá cumpri a tarefa que qualquer roteirista cumpriria e enfatizei a importância de dar mais poder ao criativo.

Tudo isso irradiou e começaram a ter editais de desenvolvimento. Em especial o dos Núcleos Criativos, que surgiram para dar poder aos roteiristas. Se você olhar os editais iniciais davam mais ênfase a qualidade dos projetos e ao líder do Núcleo, do que ao tamanho da produtora.

Eu ganhei nessa época. Tinha um projeto com uma forte unidade temática (o conceito de tropicalismo) e autores fortes. Ai deu para ganhar.

Mas esse critério que valoriza o criativo tem mudado aos poucos, infelizmente. O tamanho da produtora tem sido mais valorizado. O argumento é que só as grandes produtoras conseguem vender projetos. Não tenho os dados para ter certeza disso, mas não acredito. E o exemplo do Núcleo Criativo da FICs contesta isso. Conseguimos viabilizar 4 projetos, de 6 desenvolvidos.

  1. ABRA: Como foi o desenvolver dos projetos? Qual a dinâmica de trabalho e a hierarquia no(s) grupo(s)? Quanto tempo durou o NC, quantos projetos, quantos profissionais escrevendo?

Durou um ano e meio. Não foi fácil montar equipe de produção, ao mesmo tempo que criava os projetos. Mas tivemos autores fortes como Alan Sieber, Thelma Guedes, Flavia Boggio e Marcos Takeda. E no meio do processo trabalhei com vários roteiristas para testar e firmei parceria com Matheus Colen, que assina outro.


Eu gosto muito de processos criativos que misturam pesquisa, ensino e criação. Aluguei uma casarão aonde oferecia também cursos gratuitos aonde vários outros roteiristas e atores me ajudaram nos projetos.

  1. ABRA: E a respeito da recondução do NC? Nesse meio tempo vc virou empresário e produtor?

Sempre fui. Antes era dono de escola de roteiro. Depois produzi meus curtas, livros e tal. Mas agora com um pouco mais de estabilidade. Mas estou cada vez querendo mais produzir a mim mesmo prioritariamente. Sou um produtor no sentido de querer ser showrunner dos meus projetos. Não de produzir projetos de outros. Fiz no Núcleo, produzindo, por exemplo um projeto autoral da Thelma Guedes. Mas não é meu destino.

Mas como vejo vários amigos precisando de uma produtora que os ajude a alavancar seus projetos, estou montando uma outra empresa, em sociedade com o Leonardo Brant, um cineasta e empreendedor cultural de primeira. O nome é CIA: Centro de Inteligência Audiovisual. Eu sou sócio da empresa e primeiro cliente dela. Mas ela tem outros sócios. Ela é que gerenciará a carreira de autores. Estamos começando agora, estou contando para os amigos roteiristas em primeira mão. Estamos montando a equipe administrando primeiro minha carreira. Mas em breve poderá ajudar outros roteiristas a virarem autores, showrunners, produtores de sua própria carreira.


 ABRA: Fazendo um balanço? (fale mais do projeto vendido pro SBT e selecionado em novo edital (de produção, o prodav01)?

O resultado do primeiro Núcleo foi ótimo. Temos um longa-metragem que tem contrato com distribuidora. Fizemos uma série para o Futura, um projeto pessoal da Thelma Guedes, aonde atores consagrados lêem os contos dela. Estamos fazendo também uma série documental para o CineBrasil TV. E conseguimos viabilizar uma série grande para o SBT, um infanto-juvenil de boyband. Esse é um projeto em coprodução (e igualdade) com a Formata, uma produtora parceira.

Newton e Thelma Guedes, por Cristina Granato


ABRA: E você ainda tem energia, tempo e ideias para avançar em outras frentes:  Unidade Básica é uma coprod com a Gullane e Magal e os Formigas, um filme lançado com você de autor-produtor e diretor!!!

Unidade Básica é uma série em que a FICs é coprodutora com a Gullane e passou na Universal. Eu sou criador e roteirista-chefe. Consegui um contrato aonde tenho influência em todas etapas do criativo: do casting, escolha do diretor, corte final. Foi muito bem de audiência e na conquista de fãs. É primeira um House com Médicos de Família. E acho que funciona. Mas é também uma série ativista, defende o SUS e a Saúde Pública. Isso é importante até para o modelo de negócios da série. Pois a série virou hit entre trabalhadores de saúde do Brasil todo. É um público grande que é fã da série e divulga. Todos os dias da exibição ficamos em Top 5 do Twitter, algo difícil para seriados brasileiros de TV paga. Isso tudo por conta dos trabalhadores de saúde de todo o Brasil que discutem muito a série.


O “Magal e os Formigas” foi minha estreia na direção. Foi uma difícil transição, as pessoas no Brasil não querem que o roteirista dirija. Acho que têm medo dele ter poder criativo. Mas consegui. Foi um filme pequeno, filmado em 17 diárias, 3 locações. Mas teve ótima repercussão. Para minha carreira pessoal serviu para produtores comerciais verem que sei dirigir comédia, algo que adoro. Já tenho dois projetos para dirigir com produtores. É uma delícia poder dirigir um filme que não obrigatoriamente eu tenha escrito. Adoro. E acho que por ser também roteirista sei valorizar a dramaturgia, algo que nem todos diretores conseguem.


ABRA: FICs é o nome da sua produtora, a Fábrica de Ideias Cinematográficas … Mas também foi o nome do edital FIC TV mais cultura, que vc coordenou para o MinC. Essa replicância me faz perguntar: o que vc levou da sua experiência ‘privada’ para o SAV, que vc chefiou em 2010 e o que trouxe da SAV de volta para a sua trajetória?

O FICtv foi uma experiência maravilhosa que deve ser lembrada. Eu era supervisor artístico das séries, junto com o Roberto Dávila. Foi de lá que veio o 3% (que depois foi para a Netflix), o Vida de Estagiário (que depois foi para a Warner) e Nathalia (criação do Pellenz). Três series que adoro e tenho orgulho de ter ajudado em seus inícios.

A SAV foi tipo Serviço publico obrigatório. É muito rica a experiência. Bom e ruim. Você se expõe e deixa claro suas opiniões. Perde uns trabalhos, pois para exercer o cargo público de forma pública você acaba enfrentando alguns poderes estabelecidos. O período pós serviço público foi bem difícil. O mercado se fecha para você por um tempo. Fiquei uns anos sem lançar nenhum trabalho. Mas depois recuperei com mais vitalidade. E admito que gostei. No momento, não quero ter cargo público. Pois preciso primeiro lançar mais um monte de filmes e séries. Mas no futuro pode ser divertido, dá para implantar muitas ideias que acreditamos. Acho importante ter pessoas da área criativa em cargos de poder público.


ABRA: Próximos projetos…

Admito que estou bem desiludido da carreira de roteirista padrão. No Brasil é muito precarizado. É comum entrar em projetos e não valorizarem o roteirista. Eu já tinha até desistido.

Então estou focando mais em projetos que escrevo por ser criador/produtor/showrunner. Ou apenas diretor.

Newton com o elenco de Z4, e o autor Matheus Colen

Como criador estou esse ano fazendo o Z4 (serie para o SBT). E provavelmente terá segunda temporada de “Unidade Básica”.

Como diretor tenho dois projetos bem avançados que devem sair até o fim do ano. Um chama Puta Lição (roteiro meu, do Matheus Colen e Marcos Takeda) e outro sobre Cornelio Pires, o inventor da música sertaneja. Esse segundo é uma produção do Pedro Rovai, produtor de Tainá.

Mas até como roteirista pintou dois trabalhos que acreditei. Estava evitando pegar roteiros, pois geralmente as propostas são precarizadas. Mas apareceu dois em ótimas condições e com parceiros que admiro. Um é o Bateau Mouche, que estou escrevendo para o Afonso Poyart, um diretor que admiro demais. E outro é um longa que estou escrevendo com o Luiz Eduardo Soares, outro autor que admiro. Ambos já tem financiamento e são produções de grande porte. E fora isso tudo ainda tem os projetos de meu Núcleo Criativo, que deve ser renovado. Aí são meus xodós.


ABRA: E o tal de Fan Fiction?

Estou investindo completamente em projetos que tenham muitas ações de criação digital e participação dos fãs. Irei finalmente efetivar o que escrevi em meu livro “A TV na era digital”, aonde já idealizava projetos criados com participação dos fãs. Acho que isso será o meu maior acerto.

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A série  VIDA DE ROTEIRISTA é composta de artigos escritos pelos associados da ABRA – uma maneira de abrir espaço para a opinião do autor roteirista sobre diversas questões pertinentes à profissão. As opiniões expressas aqui são de responsabilidade do autor e podem não representar o posicionamento oficial da associação.

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