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Renê Belmonte

O roteirista Renê Belmonte, conta um pouco da sua trajetória profissional, da convivência com diretores, produtores. colaboradores.

Descreve um método de trabalho que muita gente tem, mas não tem coragem de assumir.

Patrícia Oriolo – Renê, gostaria que você descrevesse como foi a sua trajetória profissional? Renê Belmonte – Desde muito cedo sabia que queria ser roteirista, só não sabia como. Comecei a escrever roteiros de curtas que nada mais eram do que meus contos, em forma de diálogo.

Estudei propaganda porque, na época, era o que mais se aproximava de um viver “criativo”, e acabei indo trabalhar em uma produtora de institucionais, escrevendo roteiros sobre caminhão e matemática financeira.

Em 96 fui pra Londres e fiz um curso de roteiro, de volta ao Brasil participei da Oficina de Dramaturgia da Rede Globo. A experiência valeu, embora o coordenador insistisse que meu talento estava em melodrama, e eu sabia que minha praia era humor.

Conheci o Fábio Assunção, que queria fazer sitcom. Desenvolvi pra ele que viria a se tornar “Amigo é pra essas coisas”, que acabou não indo pra frente embora o projeto e a amizade tenham se mantido.

Em 2001 conheci Aimar Labaki, grande autor teatral de SP, que tinha acabado de ser chamado para escrever outra sitcom, República. Ele foi com a minha cara e me chamou pra escrever com ele. Escrevemos vinte e pouco episódios, dos quais dezenove foram produzidos e eu nunca soube o que aconteceu depois.

Nesse meio tempo, desenvolvi vários outros projetos de seriados, alguns sozinhos, outros em parceria. Um deles, o Clube de Caça, na O2 do Fernando Meireles, que chegou a produzir um “teaser” de cinco minutos da série.

Foi através desse projeto que cheguei até a Total Filmes: um dos sócios gostou do texto e me convidou para trabalhar na produtora, avaliando os roteiros recebidos e desenvolvendo projetos dentro da produtora.

Logo eu estava fazendo outras coisas: fui para o Caribe como produtor de segmento da Ilha da Sedução e acabei fazendo a redação final do reality show, criei ou participei da criação de mais cinco seriados (dentre eles, Avassaladoras e o próprio Clube de Caça), e aos poucos fui conquistando a confiança dos produtores, que me chamaram para co-escrever Sexo, Amor & Traição.

Nisso eu já estava na Total há três anos, e sentindo falta de escrever para televisão de verdade, de estar em produção. Por isso, quando me chamaram para fazer a Oficina de Humor da Globo, não hesitei.

A Oficina foi bacana, fui contratado, e acabei entrando no Sob Nova Direção. Um ano depois, a Total conseguiu luz verde para produzir o Avassaladoras, e me chamaram de volta. Nessa época eu já tinha co-escrito Se eu Fosse Você, e estava para escrever mais um roteiro de longa para eles, então fui no embalo…

Patrícia Oriolo – Alguns dizem que você é um expert em retratar o cotidiano das pessoas. Você concorda com isso e acha que é realmente o seu universo?

Renê Belmonte – Eu? Claro que não concordo. Pelo contrário, se houvesse um curso pra entender as pessoas, eu seria o primeiro a me inscrever. Escrevo sobre o cotidiano das pessoas exatamente por isso: porque não entendo. Escrevendo sobre isso, tenho a oportunidade de tentar entender, decifrar, desmistificar. Não é à toa que faço isso aliado ao humor: é com o absurdo das situações humanas, vistas com um pouco de cinismo e muita ironia, que consigo me aproximar desse universo.

Patrícia Oriolo – Qual tipo de gênero que realmente não é a sua praia e por quê?

Renê Belmonte – Hmmm, difícil dizer porque tem muitos gêneros que nunca tentei escrever pra saber se conseguiria ou não. Provavelmente não escreveria bem programas infantis, porque por trás de sua aparente simplicidade tem que ter uma didática não óbvia, um interesse sincero em abordar esse universo que não tenho, hoje… deixa eu ser pai primeiro, aí tenho certeza de que isso vai mudar…

Patrícia Oriolo – Como é o seu método de trabalho?

Renê Belmonte – Não tenho um método específico, varia muito do tipo de trabalho, do meu envolvimento e dos prazos… tá, tô enrolando. É mais ou menos assim: em geral, protelo o quanto dá – respondo e-mails, navego na Internet, jogo PS2… quando o prazo aperta, entro em pânico, sento diante do micro e varo a madrugada até terminar.

De todos os métodos que já utilizei, este é o que funciona melhor. Durante o processo de Avassaladoras – a série, experimentei me regrar um pouco, estabelecer prazos, respeitar as datas da produção e criar um esquema com os roteiristas que colaboraram comigo… também funciona, mas não é tão divertido quanto o método anterior.

Patrícia Oriolo – Você é daqueles tipos de escritores que tem cadernos e mais cadernos de anotações ou consegue se organizar no computador com pasta para “idéias”?

Renê Belmonte -Um pouco de ambos. Tenho pastas e mais pastas de idéias no meu computador. Como bom nerd que sempre fui, trabalho com computador desde 86, então são mais ou menos vinte anos de arquivos bagunçados que um dia eu juro que irei arrumar.

Patrícia Oriolo – Qual é o seu processo para construir um personagem?

Renê Belmonte – Varia, de acordo com o projeto. Gosto bastante de me inspirar em pessoas que eu conheço, é o modo mais rápido de enxergar o personagem. Outras vezes eu tenho que pensar a “frio”, racionalmente: vejo o tipo de personagem que a história precisa e vou pensando nas características dele. Mas o mais comum é eu pensar apenas num fiapo de construção – uma descrição que cabe numa linha, só um ponto de partida – e então eu começo a escrever e deixo o personagem falar por si mesmo, deixo ele me dizer como ele é. Já aconteceu várias vezes de eu pensar o personagem de um jeito e quando começo a escrever os diálogos descubro que ele é completamente diferente. E aí é ele quem manda.

Patrícia Oriolo – Você é responsável por um dos grandes sucessos atuais do cinema nacional “Se eu fosse você?”, como nasceu a idéia do filme?

Renê Belmonte – Na verdade sou apenas um dos responsáveis. A idéia original do filme é do Carlos Gregório com o Roberto Frota, eles que são os culpados. Eu entrei depois, e o que me encantou no projeto foi que, apesar da falta de ineditismo no tema, havia uma abordagem bem brasileira, uma voz muito clara e atraente.

Patrícia Oriolo – Quantos tratamentos de roteiro o filme teve e por quê?

Renê Belmonte – Ih, pergunta complicada essa. O roteiro teve, ao todo, dez tratamentos, embora os seis primeiros tenham sido outras versões da história, que não funcionaram por diversas razões. Eu entrei no projeto com a tarefa de montar um roteiro novo, aproveitando o que havia de bom nessas versões anteriores.

Por uma semana me reuni com o Daniel Filho, discutindo os pontos-chave da história, e apresentei uma estrutura que agradou a todos. A partir daí montei uma escaleta, e a Adriana Falcão abriu os diálogos de boa parte das cenas, deixando as cenas “masculinas” para mim.

O tratamento que ela fez, então, foi o sétimo. Peguei esse tratamento e escrevi as cenas restantes, ao mesmo tempo em que repassei o roteiro como um todo, mexendo nas cenas que não fui capaz de deixar claro na escaleta mas que sabia como poderiam ficar. Este foi o oitavo tratamento. Entreguei pro Daniel, que fez as mudanças dele e acrescentou alguns diálogos, nono. Tivemos uma leitura com todo o elenco e equipe, e com base nisso fiz os ajustes que geraram o décimo e último tratamento.

Patrícia Oriolo – Você se importa que os atores coloquem “cacos”? Você escreve pensando no improviso?

Renê Belmonte – Depende. Nunca escrevo pensando em improviso, e na dúvida eu diria que os cacos mais atrapalham do que ajudam, porque muitas vezes não só não funcionam como ainda acabam com o timing da cena. Isto dito, já vi muitos cacos excelentes, que só contribuíram para a história. Ou seja, depende muito do talento do ator e de sua intimidade com o texto para fazer o caco funcionar.

Patrícia Oriolo – Você também trabalhou na adaptação para o cinema brasileiro de um grande sucesso mexicano “Sexo, Pudor e Lágrimas”, que no Brasil virou, o filme “Sexo, amor e traição”. Como é nacionalizar um texto? Qual foi o seu processo para essa adaptação?

Renê Belmonte – Havia um consenso de que o filme original, Sexo, Pudor & Lágrimas, resvalava muito fortemente para o melodrama, e era mais conservador do que achávamos necessário. Mais do que isso, era para ser um filme do Jorge Fernando, por isso o roteiro tinha que ser mais leve, mais engraçado, e mais picante do que o original. O processo de trabalho foi simples: identificar os arcos dramáticos de cada personagem, adequar seus perfis e suas motivações de modo que eles soassem mais brasileiros, aliás cariocas, e conduzir a trama a partir daí.

Patrícia Oriolo – Você trabalha com muitos parceiros, qual é o seu método para escrever com outras pessoas

Renê Belmonte – Para escrever junto precisa de confiança e sintonia, estar vendo a história com os mesmos olhos. Em geral, discute-se, discute-se muito. É só bate-bola, enquanto vamos encontrando a história. Depois, ou escaletamos juntos ou um desenvolve a evolução da história – uma espécie de sinopse mal escrita – e o outro escaleta a partir disso. Isto feito, cada um pega suas cenas pra escrever os diálogos, e depois troca para um mexer nas cenas do outro, até um ponto em que não é mais possível saber quem escreveu o quê.

Patrícia Oriolo – Que tipo de coisa que você não gosta que mexam no seu texto?

Renê Belmonte – Em geral sou muito desprendido com meu texto, se duas pessoas diferentes reclamam da mesma coisa já é suficiente para que eu ache que tem alguma coisa errada. Mas gosto de fazer as mudanças eu mesmo, me incomoda descobrir que alguma coisa foi alterada sem que eu soubesse.

Patrícia Oriolo Avassaladoras, a série, não alcançou o sucesso esperado. Como você avalia a produção?

Renê Belmonte – Eu podia sair destacando todos os defeitos e problemas que a série teve… e ficar horas falando a respeito… mas a verdade é que a produção foi o mais competente que podia, diante das limitações que teve.

Foi uma tentativa de fazer algo novo, fora dos moldes normais, e nesse sentido acho que o resultado foi muito positivo. Muitas coisas atrapalharam – a imprensa foi especialmente hostil, e suspeito que nem o melhor programa do mundo a faria elogiar a série.

Para piorar, os primeiros episódios tiveram problemas, principalmente por causa de uma edição equivocada, que foi corrigida a partir do 5º episódio. E a verdade é que desde então os episódios só têm melhorado, inclusive devido à evolução natural de direção, elenco e textos.

Não sei se alcançou ou não o sucesso esperado, porque nenhum dos responsáveis esperava nada específico, justamente por causa da falta de parâmetros. A série tem dado uma média de seis pontos, com picos de dez. Para uma série que vai ao ar quase à meia-noite de uma segunda-feira, é uma ótima audiência. Que, aliás, já chegou no 2º lugar.

Na Fox, onde passa às 9 da noite, é um sucesso absoluto, dá quase o dobro do que dava Sex and the City no mesmo horário. Mas ninguém fala nisso, claro. Está fazendo bastante sucesso em Portugal. Tem uma comunidade animada no Orkut, que não pára de crescer e que comenta cada episódio. Quem está assistindo tem gostado cada vez mais. Então eu acho que valeu.

Patrícia Oriolo – Qual é a sua avaliação sobre esse momento que vive a teledramaturgia brasileira?

Renê Belmonte – Muito bom. A Record chegou com um projeto sólido e de longo-prazo, criando uma concorrência que a Globo nunca teve que enfrentar antes. E o melhor de tudo é que isso fez com que as outras emissoras “acordassem”. Praticamente todas as outras emissoras abertas e até algumas fechadas estão produzindo ou com planos de produzir dramaturgia nacional. O mercado nunca foi tão competitivo, o que além de gerar mais oportunidades para os profissionais da área também certamente faz com que a qualidade geral tenda a melhorar.

Patrícia Oriolo – Um roteirista renomado disse que a sua profissão era uma das mais bem pagas do mundo. A realidade não é essa e muitos nomes sofrem com cachês baixos, desrespeito dos mais variados tipos. Quais foram os seus “sofrimentos” na profissão?

Renê Belmonte – Putz… a lista é grande. Só de contar o número de vezes em que eu “quase cheguei lá” e depois voltei à estaca zero… sou mais um na lista de pessoas que levaram calote da Rede TV… já vi meu texto ser destruído por diretores incompetentes mais de uma vez (por sorte, na maioria das vezes ninguém viu, porque o resultado ficou tão ruim que morreu ali mesmo)… mas talvez meu maior sofrimento tenha sido a dificuldade para me firmar na profissão, conseguir viver de escrever.

Patrícia Oriolo – No filme “Sheakspeare Apaixonado” em determinado momento o “patrocinador da peça” vê o escritor inglês no palco conversando com os atores e pergunta para o diretor quem é aquele e esse prontamente responde: “ninguém, é o autor”. Você acha que para muitos o autor não é ninguém? Renê Belmonte – Não só acho como ri alto nesse momento do filme. Se o Tom Stoppard, que escreveu essa cena, pensa assim… e o cara é um dos maiores dramaturgos e roteiristas em atividade hoje, um dos caras que eu quero ser quando crescer, então isso mostra que ainda temos um longo caminho pela frente… o problema é que a maioria das pessoas nem sabe o que faz o roteirista. Então conseguir um pouco de respeito é uma tarefa árdua.

Patrícia Oriolo – O que é um roteiro bom?

Renê Belmonte – É aquele que tem o pacote completo: boa história, bom desenvolvimento, bons personagens, bons diálogos… mas que sobretudo tenha a capacidade de dialogar com seu público alvo… espera, deixa eu me corrigir. Um bom filme tem essa obrigação, não um bom roteiro, porque o roteiro não chega ao espectador. O público de um bom roteiro é o produtor, o diretor, o elenco, a equipe. Roteiro bom é aquele que tem a capacidade de motivar as pessoas envolvidas a dar o melhor de si, a acreditar no projeto. Porque só assim se tem um bom filme.

Patrícia Oriolo – Qual roteiro você gostaria de ter escrito?

Renê Belmonte – Vários, mas três me vêm imediatamente à mente. O primeiro é Manhattan, meu Woody Allen preferido. O segundo é Procura-se Amy, do Kevin Smith. E o terceiro é Los Peores Años de Nuestras Vidas, escrito por David Trueba e dirigido por Emilio Martinez Lázaro. Não necessariamente nessa ordem. E sim, adivinhe o que os três têm em comum…

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