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Primo Carbonari

Filho de imigrantes italianos, nasceu na Barra Funda. Por parte do seu pai, os que vieram para o Brasil eram maçons e, por parte da sua mãe, eram sicilianos. Dos que vieram para o Brasil, uma parte foi trabalhar na Matarazzo, outra foi fazer estaleiro no Rio.

Por haver nascido junto com o ano de 1919, seguindo a linha de sucessão em terras brasileiras dos empreendedores e coléricos imigrantes italianos da família Carbonari, ele recebeu o nome de Primo (primeiro).

Carbonari começou na carreira como aprendiz de lambe-lambe na Estação da Luz, região central de São Paulo. Depois disso trabalhou no laboratório da família Matarazzo, onde conheceu o cinema.

Na segunda metade da década de 30, Primo Carbonari direcionava uma câmera de cinema (o caçula das artes) para o canteiro de obras no qual seria erguido o aeroporto de Congonhas (SP). Começava sua carreira de produtor e documentarista de uma São Paulo retratada em quase 3.000 edições do cinejornal “Amplavisão”, extinto nos anos 90, quando também chegou ao fim a Embrafilme, que foi banida por decreto pelo então presidente Fernando Collor de Mello (1990-1992).

Na década de 50 não houve quem não tivesse assistido a pelo menos uma edição do cinejornal Amplavisão. Durava cerca de dez minutos e era exibido antes do início da sessão na maioria dos cinemas que pertenciam ao circuito paulista Carbonari retratou eventos sociais, evoluções da medicina, esporte, roubos, acontecimentos extraordinários e a política de São Paulo, servindo-se de uma brecha na lei que obrigava os cinemas a transmitirem um mínimo de dez minutos de produção nacional antes de qualquer filme. E lá passava um cinemão de Hollywood da época, mas não sem antes exibir o “Amplavisão”.

Assistindo o cinejornal, algumas pessoas se colocavam na condição de voyeurs, aquela era oportunidade única de ver a intimidade da elite estampada nas telas, as roupas que as primeiras-damas estavam trajando, seus colares de pérolas e os penteados.

Personalidades “retratadas acima de qualquer suspeita, que se mostravam imprescindíveis para a vida brasileira”, nas palavras do cineasta Eugenio Puppo. Políticos, na opinião do cineasta, transformavam-se em vedetes na frente das lentes de Carbonari.

Nos anos 20, era comum deparar-se com esse tipo de filmes institucionais, encomendados por personalidades que estavam em evidência. De todos os cinegrafistas desse período, merecem destaque Gilberto Rossi, que manteve o seu cinejornal por cerca de 20 anos, e Carbonari, considerado por Bernardet “o mais importante cinegrafista de São Paulo, por ter sido persistente e garantido a continuidade das suas produções ao longo de décadas”.

Carbonari conseguia condensar o maior número de assuntos possíveis em um cinejornal de apenas dez minutos. Eventos relacionados à política e ao esporte estavam sempre presentes. Imagens abertas e fechadas se alternavam no intuito de revelar ao espectador todos os que estiveram presentes em determinado evento.

Mas, no que se refere à qualidade estética, as imagens de São Paulo de Carbonari estão longe de se equiparar, por exemplo, às de São Paulo S.A., de Luís Sérgio Person, produzido nos anos 60 e também ambientado na capital.

Boa parte dos filmes realizados pelo cinegrafista apresenta problemas de enquadramento, fotografia e foco. Suas condições de filmagens eram bastante artesanais e buscavam, acima de tudo, mostrar o acontecimento por um viés mais jornalístico do que artístico.

Mas, ainda assim, imagens de determinados logradouros de São Paulo, quando contrapostas com as atuais, sugerem uma cidade mais humana, onde a qualidade de vida era melhor.

Praticamente todos os visitantes ilustres que passaram por São Paulo foram filmados por Carbonari: artistas, esportistas, diplomatas, presidentes etc. Em todas as corridas São Silvestre e importantes manifestações populares, ele esteva presente.

Bem como grandes eventos como as comemorações do quarto centenário de SP e o primeiro gol de Pelé, e cenas pitorescas, como o famoso roubo de 500 milhões do Banco do Brasil nos anos 60. Mas, para o próprio Carbonari, dentre as coisas mais importantes que filmou foi a morte de Getúlio Vargas e a morte de Costa e Silva.


Além dos documentários, Carbonari produziu também alguns longas. Ele foi um dos pioneiros do gênero “docudrama”, que associava dramatização aos fatos reais –recurso que a televisão usa hoje com freqüência. Um deles é “Ai Vem os Cadetes”, que mostra a paixão de Primo pelo exército.

Seu cinejornal “Amplavisão”, transformou-se no maior acervo de imagens privado do Brasil. Hoje são mais de 3.000 edições do cinejornal, que buscam restauração e catalogação. Assim como boa parte da produção nacional, mais da metade de suas películas se perdeu. Restam hoje 8 mil latas de filmes em 35 milímetros, das 24 mil iniciais.

Tendo conhecimento do péssimo estado de conservação desse material, desde o ano de 2003 o crítico Jean-Claude Bernardet e o cineasta Eugenio Puppo, com o apoio de Regina Carbonari, única filha do cineasta, lançaram-se na difícil tarefa de não só recuperar o acervo de películas daquele que foi um dos principais cinegrafistas de São Paulo, mas de repensar a sua obra através da produção de um longa-metragem de 90 minutos.

Dispostos a uma revisão crítica do acervo de Carbonari (quase 8.000 rolos de filmes, cuja metade diz respeito a personagens e fatos de São Paulo), foi feito o documentário “Ampla Visão de São Paulo”.

Carbonari ganhou 60 prêmios do Instituto Nacional de Cinema Educativo e sempre se auto definiu como “Um homem cheio de glórias”. Para ele, sua única derrota foi quando Collor de Mello assumiu a Presidência, chegando a afirmar para uma entrevista:

-“Por uma razão só eu estava muito ligado com o pessoal de TV. A única pessoa que segurava a situação entre a TV e o cinema era eu. Perdi naquele dia da extinção da Embrafilme… Tinha 65 empregados. Tive de vender propriedades, perdi US$ 30 milhões.

Produtora e distribuidora de filmes brasileiros, a Embrafilme era responsável pela liberação de recursos para o mercado cinematográfico e geria seu modelo de funcionamento, que incluía a obrigatoriedade de exibir nos cinemas curtas e cinejornais, antes das sessões de filmes.

Há anos que o cineasta estava recolhido em sua casa, cuidado que sua filha Regina Carbonari tinha adotado para preservar o pai de possíveis dissabores em consequência de suas declarações, que continuam carregadas de ênfase, juízos definitivos e sentimentos extremados, embora, às vezes, careçam de precisão, quando invocam memórias distantes.

Carbonari morreu na noite de 21 de março deste ano, aos 84 anos de idade, em sua casa no bairro da Barra Funda (zona oeste de São Paulo) ao lado da filha e do neto.

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