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Marília Nogueira e o protagonismo feminino no Prêmio Cabíria

Símbolo da perseverança e resiliência, a protagonista de Fellini encarna a luta por uma melhor representação feminina no audiovisual brasileiro.

 

Atenção: Inscrições prorrogadas até o dia 25/05/2017. 

 

Por Melina Guterres

Até 25 de Maio estão abertas as inscrições para o prêmio de roteiro Cabíria voltado histórias com protagonistas femininas, que tem como propósito aumentar a quantidade e qualidade da representação feminina nas telas e atrás das câmeras.

O prêmio idealizado pela produtora Marília Nogueira, nasceu no ano passado quando teve 165 inscrições.  “Percebi que a maior parte das histórias e ideias que vinham à minha cabeça possuíam protagonistas masculinos ou eram narradas do ponto de vista de um personagem masculino. Isso não fazia sentido. Como mulher seria muito mais fácil povoar minhas narrativas com outras mulheres.”, diz Marília sobre a criação do prêmio.

É possível inscrever até três roteiros tendo no enredo, no mínimo uma protagonista feminina. Além disso, o prêmio participará também do Seminário Internacional Mulheres no Audiovisual da Ancine que acontece 30 de março no Auditório da Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro.

Confira a entrevista.

Marília Nogueira


MG: Quem é a Marília e por que ela criou um prêmio Cabíria?

Trabalho como assistente de direção, além de escrever e dirigir meus curtas. Foi no exercício da escrita que veio um dos primeiros gatilhos para a criação do prêmio. Percebi que a maior parte das histórias e ideias que vinham à minha cabeça possuíam protagonistas masculinos ou eram narradas do ponto de vista de um personagem masculino. Isso não fazia sentido. Como mulher seria muito mais fácil povoar minhas narrativas com outras mulheres. Eu estava no movimento oposto, chegando ao cúmulo de ter a inspiração de uma mulher real para um personagem e transformá-la em um homem no roteiro. Não era exatamente uma escolha consciente.  Talvez porque tenha crescido rodeada de narrativas quase sempre contadas ou vividas por personagens masculinos – em livros, filmes, desenhos, quadrinhos – havia dentro de mim a percepção de que uma história com uma protagonista feminina seria “menos universal”. Muitas conversas e discussões com amigos depois e o Cabíria começava a tomar forma no papel.


MG: Por que o nome Cabíria?

A inspiração para o nome veio da protagonista de Fellini em “Noite de Cabíria”, uma jovem prostituta lutando para sobreviver à miséria e à solidão na Itália do pós-guerra. São muitos os revezes, mas Cabíria se levanta continuamente e segue adiante. Assim, além de uma grande protagonista feminina, Cabíria é símbolo da perseverança e resiliência que precisamos na luta por uma melhor representação feminina na mídia e maior representatividade das mulheres na sociedade.


MG: Há quanto tempo existe o prêmio e quantos roteiros já foram inscritos?

Estamos na segunda edição. Em 2016, foram recebidas 158 inscrições válidas: 102 roteiros escritos por mulheres e outros 56 de autoria ou coautoria masculina.

Debora Ivanov entrega o prêmio Cabíria 2016 a Thais Fujinaga pelo roteiro "O Filho Plantado".


MG: Por que o júri é composto somente por mulheres?

Um dos objetivos principais do prêmio é melhorar a representação feminina nas telas.  Mais legítimo que mulheres julguem a qualidade dessa representação.


MG:Por que é importante falarmos do protagonismo feminino no cinema?

O cinema ainda contribui de forma significativa para a construção do imaginário coletivo. Se o que vemos nas telas influencia a maneira como vemos o mundo, estimular a produção de filmes com protagonistas femininas mais relevantes e diversas é contribuir para uma sociedade com mais igualdade de gênero e respeito à diversidade.


MG: Como você vê hoje o papel das mulheres no cinema no Brasil e exterior?

Se você age em um meio que influencia o imaginário coletivo, você tem grandes responsabilidades. Mulheres e homens também. No caso das mulheres essa responsabilidade é ainda maior. Mulheres brasileiras? Latino americanas? Negras? Muito maior. Maior a opressão do grupo ao qual você pertence, maior a responsabilidade. Se não forem as mulheres, que lidamos diariamente com as consequências dessa sociedade sexista, quem irá se movimentar para a mudança? Ao mesmo tempo, não podemos permitir que esse senso de responsabilidade se torne um entrave à criação.


MG: E o papel das roteiristas especificamente?

É onde tudo começa. É um poder enorme, uma grande oportunidade.


MG: Como você avalia o mercado do cinema brasileiro hoje? Como ele pode colaborar mais pra o desenvolvimento do protagonismo feminino?

Algumas mudanças já estão em curso e graças à pressão de mulheres do meio. O mercado tem interesse no desenvolvimento do protagonismo feminino no cinema? Não sei, mas podemos fazer pressão junto à Ancine por equidade de gênero nas bancas examinadoras de editais e por cotas ou editais específicos para filmes escritos e dirigidos por mulheres.


MG: Você observa diferença de olhares entre a escrita feminina e masculina em um roteiro? Se sim, poderia apontar algumas mais latentes? Onde ambos devem melhorar?

Não sei se existe uma escrita feminina ou masculina. Pode ser uma diferenciação complicada. Em discussões e críticas de filmes e livros, por exemplo, a ideia de “olhar feminino” pode, intencionalmente ou não, reduzir o valor da obra ou interromper a possibilidade de uma análise estética mais profunda.


MG: Qual o papel do roteirista, independente de sexo, quanto à criação de enredos e o desenvolvimento dos personagens femininos?

Submeter sua história ao teste de Bechdel é um bom começo:

1 – Tem ao menos duas mulheres?

2 – Elas conversam uma com a outra?

3 – Sobre alguma coisa que não seja um homem?


Mais sobre o prêmio Cabíria em: https://www.cabiria.com.br/

Intervenção do Cabíria durante o Seminário da Ancine dia 30 de março

E a sugestão de Marília:

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