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FRAPA, festival onde o roteirista é protagonista

Entrevista com Leo Garcia, roteirista, produtor, sócio da Coelho Voador e diretor-geral do FRAPA – Festival de Roteiro Audiovisual de Porto Alegre.


  1. ABRA – Retornando a 2013, qual foi o elemento desencadeador do FRAPA?

Eu trabalho profissionalmente com roteiro desde 2007. Há dez anos a vida de um roteirista no Brasil era bem complicada (não que hoje seja fácil, mas é inegável que nosso mercado melhorou bastante) e eu sentia falta de um espaço onde pudesse encontrar profissionais da minha área e conversar sobre todas as nossas angústias do dia-a-dia. Muitas vezes o trabalho do roteirista é solitário, então sempre valorizei muito essa troca. E não só isso. Gostaria que existisse um evento no qual o criador da obra pudesse tentar negociar seu trabalho, que ajudasse nossos projetos efetivamente a saírem do papel e que desse o verdadeiro valor ao roteiro. 

Só que não havia um evento assim no Brasil nem na América Latina. Existem alguns laboratórios – que são fundamentais diga-se de passagem – mas que servem como consultorias para alguns poucos selecionados. Ali por 2011, cheguei a participar de um ciclo de palestras em São Paulo sobre roteiro e achei aquilo tudo fantástico. Também tive um roteiro selecionado pra participar do Festival da Adaptação no Rio, que além de ser um laboratório, tinha algumas semelhanças com o que viria a ser o FRAPA, onde conheci parceiros pro trabalho e pra vida. Mas infelizmente esse festival também não teve continuidade.

Era início de 2013 e eu lembro de pesquisar sobre o London Screenwriters Festival que estava recém indo pra sua quarta edição e já era gigantesco. Pô aquilo me motivou, eu tinha cada vez mais convicção de que existia uma demanda muito grande para um Festival de Roteiro no Brasil e aí resolvi cometer a loucura de criar este Festival que eu queria tanto que existisse. Claro que não foi da noite pro dia. Chamei dois amigos produtores, a Mariana Mêmis Müller e o Pedro Guindani, que toparam a empreitada e entraram com a expertise que eu não tinha (na época eu ainda não produzia, só escrevia) e foi mais ou menos assim que tudo começou.

Vale ressaltar que gente não imaginava que seria tão difícil, até hoje é uma epopeia realizar cada edição – lembrando que estamos fora do eixo Rio-São Paulo. Não contamos com financiamento como a maioria dos grandes festivais e conseguimos sobreviver graças as inscrições e parcerias estabelecidas. Além disso, a gente não vive exclusivamente para o festival, temos projetos pra tocar em paralelo, mas damos jeito de arranjar tempo nas madrugadas e finais de semana.

Mas nada disso importa quando olhamos pra trás, tanta gente bacana que a gente teve a oportunidade de conhecer e ver agora o FRAPA consagrado e extremamente relevante para tantas pessoas, isso dá um orgulho danado. Desde o início o lema foi fazer um Festival que a gente gostaria de frequentar, com conteúdo, convidados de peso, gente legal e festas boas. É muito bom ver um sonho realizado. Difícil mesmo é produzir esse sonho delicioso e quentinho todo ano.

  1. E como evoluiu como nessas quatro edições?

As primeiras duas edições do FRAPA foram mais experimentais, no sentido de testar formato, analisar o que funcionava melhor e o que não funcionava. Elas foram realizadas em parceria com a Feira do Livro de Porto Alegre, que é um evento incrível que acontece em novembro, com mais de 60 anos de história. Foi muito importante para nos dar suporte e respaldo no início e também como ajuda para trazer convidados para ambos eventos. Só que ao mesmo tempo, a Feira é um evento tão grande que o FRAPA ficava meio escondido dentro de tantas atrações.

Como estratégia para crescer, em 2015, na nossa terceira edição, decidimos caminhar com as nossas próprias pernas. Antecipamos para o meio do ano, em julho, um mês estratégico no calendário de festivais no Brasil e no mundo, por ser nas “férias” as agendas tendem a estar mais disponíveis também. E ao invés de ter diversas sedes espalhadas pela cidade, decidimos concentrar tudo na Cinemateca Capitólio, um belíssimo cinema de rua de Porto Alegre, que demorou dez anos para ser reinaugurado e o FRAPA teve a honra de sediar o primeiro evento audiovisual da cidade no local. Desde então virou nossa sede oficial.

Também ocorreu uma importante mudança de foco: decidimos fazer o FRAPA um evento voltado para a classe, um encontro entre profissionais, com temáticas mais específicas. É claro que algum curioso, que pensa em se aventurar na profissão, será muito bem-vindo em todos os debates e vai aprender muito, não é um clube fechado. E justamente para não sermos excludentes com o público em geral (que é para quem contamos nossas histórias), temos como atividade aberta a nossa Mostra de Curtas, que é possivelmente a única do mundo que premia somente os roteiristas (prêmios de melhor personagem, diálogo, cena, final, título e obviamente melhor roteiro).

E este ano estamos trabalhando para tentar lançar uma Mostra de longas um pouco antes do FRAPA, como uma espécie de warm up, em parceria com a ABRA, para exibir os longas finalistas do I Prêmio ABRA e debater justamente seus roteiros – e a ideia é que sejam sessões abertas para o público.


Hoje em dia quem toca o FRAPA sou e minha sócia no festival, a Mêmis e nesse ano recrutamos dois reforços: a roteirista Camila Agustini e o produtor Fabiano Florez. Contamos sempre com a parceria de muitos amigos que fazem parte das curadorias e júris e também de uma equipe supercompetente e atenciosa que trabalha pesado para que o Festival ocorra da melhor maneira possível. Sem eles o FRAPA não seria possível.

  1. E os roteiristas, esses caras com reputação de viver meio “cada um em sua bolha”, eles têm mesmo o que trocar nesses encontros?

Na minha opinião, bons roteiristas não podem viver numa bolha. Muito pelo contrário, é preciso ver (e viver) o mundo com os olhos bem abertos para poder se inspirar e ter o que escrever. O que acontece muitas vezes é o fato de o/a roteirista ser uma pessoa tímida, introspectiva, com dificuldade de se enturmar ou de apresentar seu projeto e suas ideias. É o famoso clichê que é verdadeiro. Acho que o FRAPA é muito bom nesse sentido, de ajudar este cara ou essa mina a encontrar uma turma e também a perder o medo de falar sobre algo que conhece melhor do que ninguém, o seu roteiro.

A gente incentiva essa interação valorizando eventos extra-oficiais à noite, pois querendo ou não é onde tu vai fazer as amizades, o networking não é assistindo palestras e sim nos corredores do Capitólio e principalmente na mesa de bar (mas também não dá pra exagerar, pois na manhã seguinte tem programação – com exceção da festa de encerramento, onde é permitido enfiar o pé na jaca!!!). Eu estive no Festival de Austin, provavelmente o maior do mundo focado em roteiro e é incrível como os americanos valorizam estes eventos de confraternização. Falando nisso, esse ano vou ver se consigo inserir na programação noturna um sonho antigo: o Drunking Pitching. Outra hora conto mais detalhes…

E sobre ter o que discutir durante o FRAPA, para nós da organização todo ano é uma luta fechar a programação, pois há sempre muitos temas que queremos abordar e sempre falta grade. O fato do roteiro não ser uma ciência exata faz com que a gente tenha assunto para pelo menos mais umas 40 edições. E quando chegarmos em 2057 talvez nossas preocupações sejam outras.


Já que estamos falando sobre roteiristas, não quero chover no molhado aqui, mas todos sabem que a nossa profissão era (ou ainda é) pouco valorizada no mercado. Iniciativas como o FRAPA existem para mudar esta realidade. Foram incontáveis as vezes que, no início da minha carreira, tive que trabalhar “no amor” e no risco – e quando o projeto ia pra frente, a remuneração não era boa e o meu nome era constantemente omitido na imprensa. Já nos festivais tradicionais, os roteiristas são quase sempre deixados em segundo plano, não são procurados para entrevistas e nos eventos de mercado o jogo é dos produtores com os “players”. Sem falar que quando penso em um set de filmagem, sempre me lembro da cena do “Adaptação” do Nicolas Cage/Charlie Kaufman todo desajeitado sem saber o que fazer e como agir. 

Ou seja, somos um povo sofrido – e que adora reclamar, como podem comprovar no parágrafo acima. Mas também temos que fazer um mea culpa. Teve um ano que trouxemos o Fernando Castets (do maravilhoso “O Filho da Noiva”) para uma Master Class. Ele abriu a apresentação dele com uma foto de um velhinho simpático na tela do cinema e perguntou quem era. Ninguém sabia. Ele falou o nome do senhor: Tullio Pinelli. Nada. Era ninguém menos que o roteirista de “8 e 1/2”, “Dolce Vita”, e vários outros filmes do Fellini, também Rosselini, Antonioni, enfim escreveu “só” uns 90 filmes na carreira. E mesmo assim, num ambiente de roteiristas praticamente ninguém o conhecia. Antes de cobrar que os outros nos valorizem, nós temos também que aprender a nos valorizar. 

  1. Como a indústria do audiovisual se comporta em relação ao FRAPA e por que porta ela entra?

Durante muitos anos convivemos com aquela balela do “o que falta pro cinema nacional são bons roteiristas” pra logo vir aquela comparação esdrúxula com o cinema argentino (sendo que essas pessoas que dizem isso assistem os 3 melhores filmes argentinos do ano que tenham o Ricardo Darín). Mas enfim não quero perder o foco da resposta…

A Rodada de Negócios do FRAPA é diferenciada, pois é onde roteirista tem a chance de apresentar o seu projeto para uma produtora. Com o nosso mercado aquecido, os produtores também têm muito interesse em conhecer novos roteiristas e projetos. Na nossa Rodada, o roteirista também tem contato direto com os canais. Acho fundamental essa aproximação das programadoras com os criadores, é uma movimentação que tenho acompanhado com interesse nos últimos anos. E nessa edição também vamos tentar trazer distribuidores para a Rodada, já que muitos deles têm interesse de entrar no projeto em estágio inicial e criar essa relação com os roteiristas. 


Importante dizer que desde sua primeira edição o FRAPA sempre visou ser o ponto crucial do roteiro na América Latina. Ou seja, não é somente um encontro para os roteiristas e sim voltado para todos os profissionais do audiovisual. Queremos aproximar os roteiristas dos diretores, dos produtores, dos sound designers, dos diretores de foto, dos montadores… 

No momento que todos valorizam e entendem melhor esta peça tão mística chamada roteiro, toda a indústria sai ganhando. 

  1. –  que acontece durante esses quatros dias? 

No início todo mundo perguntava “tá, mas o que diabos é um Festival de Roteiro?”. Hoje em dia o pessoal já sacou como funciona. São quatro dias intensivos recheado de atividades: Mesas de Debate, Workshops, Masterclass, Estudos de Caso, Pitchings com os finalistas do concurso de longas e pilotos, Mostra de Curtas e também Rodada de Negócios.

É uma maratona e tanto, posso garantir que os participantes e os convidados voltam pra casa exaustos, mas muito satisfeitos (pelo menos é o que dizem os que vêm nos parabenizar no final hehehehe).

  1. Para a edição 2017 (a 5ª) em que pé estão as coisas?

O V FRAPA acontece de 4 a 7 de julho, em Porto Alegre.

As inscrições já estão abertas no site: www.frapa.art.br e com preços promocionais até o dia 20 de março. Ali no site dá pra comprar nosso pacote completo, o básico ou as atividades avulsas, tá tudo explicado ali com os valores.

Pretendemos ao longo do mês de março lançar o cartaz oficial da quinta edição bem como anunciar os primeiros convidados.

E muito importante:

o pessoal tem de ficar de olho nos deadlines do Concurso de Roteiro (15 de abril), Mostra de Curtas (30 de abril) e Rodada de Negócios (10 de maio).


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