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Encontro com Max Blecher e sua adaptação para o cinema

por Di Moretti

Desrespeito saudável

No último dia 27 de outubro, numa realização da ABRA em parceria com a 40ª Mostra Internacional de São Paulo, coordenei uma mesa com o roteirista Marcos Lazarini (Abra) e o tradutor Fernando Klabin, estudioso da obra do escritor romeno Max Blecher. Depois da exibição de Corações Cicatrizados, premiado no último festival de Locarno, fizemos um bate papo sobre roteiro adaptado, tendo como base este filme. O longa-metragem testemunha a trajetória de Emanuel, vitima de tuberculose óssea (Mal de Pott) que padece num hospital às margens do Mar Morto. Independente do tema, falamos sobre o processo de adaptação deste livro em particular e do trabalho do roteirista diante do desafio de adaptar uma obra literária. Um trabalho complexo que exige bom senso e sensibilidade, como já disseram muitos experts no tema, como Jean Luc Godard: “não importa de onde roubemos as ideias, mas sim para onde as levamos” ou mesmo Walter George Durst: “adaptar uma obra é trair por amor”….

No evento, trouxemos exemplos práticos deste processo criativo do roteirista e levantamos as dificuldades e diferenças em se trabalhar com um texto adaptado. Desde a concentração de personagens e as escolhas que tem de ser feitas para uma transposição tranquila da obra literária para a tela. Muitos dizem que é melhor trabalhar com um texto adaptado porque a dramaturgia já vem pronta, afirmação da qual discordo pessoalmente porque vejo particularidades específicas para cada formato. Fernando Klabin comentou que “na verdade, o filme extrapola este livro em particular e se apropria de outras obras do autor, aproveitando inclusive momentos da vida de Blecher, como sua doença e sua passagem pelo mesmo hospital retratado no filme”. Fernando ainda nos disse que o roteirista/diretor do filme (Radu Jude) tomou a liberdade de explorar outros temas que não constam das obras do escritor romeno, como o antissemitismo e o recrudescimento do nazismo.

Livro é livro e filme é filme.

O público quis saber sobre o envolvimento de Fernando na produção, dando-lhe a oportunidade de inclusive ser um dos atores do filme, e seu interesse específico na obra de Blecher, um autor pouco conhecido no Brasil e não tão famoso na própria Romênia. As dúvidas gerais giraram em torno do que deve ser levado em conta na hora da adaptação e de como fazê-la sem adulterar a obra original.


As respostas foram sempre na mesma direção: é necessário preservar a essência da trama, mesmo que com isso se sacrifique alguns elementos narrativos, afinal livro é livro e filme é filme.

Na minha opinião, é preciso ter um “desrespeito saudável” pela obra adaptada e não tentar fazer cabê-la integralmente dentro do filme. Enfim, o encontro foi bastante satisfatório e proveitoso, porque nos deu mais uma vez a chance de falar sobre o nosso trabalho e revelar que o processo de adaptação não é assim tão simples quanto parece. E, particularmente, me deu a chance de conhecer a obra de um autor que desconhecia e que se revelou extremamente interessante e provocativo.

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