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A regionalização das produções é sinônimo de democracia audiovisual

O audiovisual que vem do norte

VIDA DE ROTEIRISTA, por Ismael Machado

Cena 1

Abertura do Cineamazônia 2016- festival de cinema que existe há 15 anos em Rondônia. É exibido o filme ‘Rondon, o Desbravador’, que tem no elenco Nelson Xavier e Marcos Winter. É praticamente uma pioneira investida do estado de Mato Grosso em um longa-metragem de ficção.

Cena 2

‘Perdidos’, longa-metragem de ficção é aprovado no Prodecine 1. É o primeiro longa-metragem de ficção que será produzido em Rondônia. A pré-produção inicia em setembro de 2017.

Cena 3

O governo do Amapá anuncia no final de julho a abertura de edital para produções audiovisuais no estado. Parte dos recursos é estadual e parte do Fundo Setorial do Audiovisual.

Cena 4

TV Norte, uma produtora de Belém do Pará, é uma das vencedoras do edital do Canal Futura. Os recursos virão do Prodav 1.

Cena 5

Quatro produtoras de Belém são vencedoras dos quatro primeiros editais de Núcleo Criativo (o Prodav 3).

Cena 6

Do Amapá, a produtora Castanha inicia a pré-produção de ‘Mad Scientists: cientistas que ninguém quis ouvir’, série documental vencedora do Prodav 8 2015. As filmagens iniciam em outubro. É a primeira vez que uma produtora amapaense encara o desafio de uma série de 13 episódios com alcance nacional.


Fernando Segtowick, entre imagem e som

O cenário descrito acima seria praticamente impensável anos atrás. No entanto, a Amazônia vivencia hoje uma efervescência audiovisual como há muito tempo não se via. Talvez nunca se tenha visto. No Acre, o Festival Pachamama já é uma realidade. Em Manaus, produtoras estão buscando um espaço ao sol. Algumas ganharam Prodav 8 e já começam a produzir. Em Belém, o cenário é ainda mais agitado. Diretores como Fernando Segtowick, Jorane Castro e Roger Elarrat estão a pleno vapor com produções no forno. Longa-metragens já não fazem mais parte de uma ficção inalcançável.

O que fez isso ser possível atende por uma política implantada na Ancine e no Ministério da Cultura, principalmente a partir da gestão dos governos petistas na presidência da República. Descentralizar e regionalizar. Os dois verbos, conjugados juntos, democratizaram a produção audiovisual brasileira

Logicamente esse é um cenário que segue uma cadeia produtiva criada na Ancine com o Fundo Setorial Audiovisual. Da criação à distribuição, praticamente todas as pontas desse novelo estão sendo contempladas. Não é perfeito, mas o universo audiovisual brasileiro hoje é mais rico, diverso e amplo graças à entrada em cena de produtoras do Norte, Sul, Centro-Oeste e Nordeste do Brasil. O que antes era praticamente restrito a Rio de Janeiro e São Paulo, ganhou amplitude, espraiou-se.


cartaz do curta paraense que cresceu e virou longa.

Ganham todos. São histórias diferentes, sotaques diversos, cores novas.

Corre risco, no entanto. Um conhecido sócio de uma produtora carioca revelou-me numa conversa que as grandes produtoras desses dois eixos queixam-se dessa divisão do bolo. E que isso seria uma barganha, moeda de troca e pressão junto ao governo. Não foi à toa que em alguns editais os conceitos atribuídos às produtoras cresceram no índice de aprovação. Retraíram no último edital Prodav 3, pressão de roteiristas, inclusive.

Outras produtoras partiram para uma estratégia simples. Criar CNPJs nas regiões em questão. Ou usar produtoras locais como cavalos selados.

Roger Elarrat, diretor de JULIANA CONTRA O JAMBEIRO DO DIABO PELO CORAÇÃO DE JOÃO BATISTA

Se esse deslocamento das grandes produtoras para esses estados é verdade ou não, o fato é que a manutenção dessas duas condições básicas, descentralização e regionalização, permanece como uma bandeira a ser defendida pelos que veem o audiovisual com o sentido democrático de que a voz e as imagens devem ser para todos e não apenas para poucos.

Entender isso é fundamental para compreender a importância que essa política audiovisual brasileira alcançou para roteiristas, diretores, técnicos, produtores etc que querem ver suas histórias nas telas. Sejam elas grandes ou minúsculas. Para nós, que estamos em outros lados do mapa brasileiro, existe a clara sensação de estarmos fazendo parte de uma nova história. E somos nós quem iremos contá-la.

Ismael Machado é roteirista, jornalista e escritor. Paraense. Publicou 4 livros. Conquistou 11 prêmios jornalísticos e um de literatura.

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A série VIDA DE ROTEIRISTA é composta de artigos escritos pelos associados da ABRA – uma maneira de abrir espaço para a opinião do autor roteirista sobre diversas questões pertinentes à profissão. As opiniões expressas aqui são de responsabilidade do autor e podem não representar o posicionamento oficial da associação.

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