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A jornada de (escrever) Psi, em três almoços

O processo de criação da série cult de Contardo Calligaris, que estreou sua 3ª temporada na HBO. Vida de Roteirista, por Thiago Dottori

Primeiro Almoço

Tudo começou com um telefonema, ainda em 2011.

Alô, Thiago, aqui é Contardo. Quer escrever uma série comigo?

Não foi bem assim, mas quase. Do outro lado da linha, Contardo Calligaris, que eu conhecia dos artigos na Folha. Não apenas conhecia, vai. Era meio fã, admito. Muitos textos do Contardo na Ilustrada foram recortados e ocuparam um lugar cativo numa pasta – já houve um mundo sem internet – em que eu guardava todo tipo de artigo que me interessava. Era o Contardo que muitas vezes me explicava o que eu tinha achado de um filme, ou de uma peça, ou da vida, sei lá. Eu sempre adorei a aproximação que ele fazia (e faz) da cultura pop com conceitos psicanalíticos, desse lugar onde 50 Tons de Cinza convive com Schopenhauer e Harry Potter troca uma ideia com Lacan. Por que, então, eu não poderia conviver e criar uma série com o Contardo?


Vim para o primeiro almoço um tanto nervoso e quase implorando pela oportunidade, mas também tentando ficar tranquilo e demonstrar sobriedade. Os tais “desejos inconciliáveis” de um bom protagonista de série.

  – 13 episódios de uma hora? Sobre psicanálise? Tranquilo.

Não que eu fosse inexperiente. Eu já tinha escrito alguns longas e outras séries. Mas é inevitável: sempre acho que não vou dar conta. Qualquer projeto ou convite que surge à minha frente já projeta aquele básico dilema existencial: “será que é nesse que descobrem a farsa?”. Descobri, conversando com colegas, que esse é o “ser ou não ser” do roteirista, essa sensação permanente de que vai ser impossível. Talvez, justamente, por já ter escrito um tanto, a sensação é de que é cada vez mais difícil levantar as páginas em branco com criatividade, beleza e coerência, o inevitável e o surpreendente convivendo no limite do nosso talento e esforço. Acho que o corpo avisa: “Tem certeza de que vai encarar mais essa?”.

Encarei, claro. A gente ama esse troço.

Pra ajudar, Psi tinha um outro tipo de desafio. Não era “apenas” escrever 13 roteiros de uma hora, sobre psicanálise, para a HBO, mas também e principalmente mergulhar num mundo, numa densidade, num universo tão caros ao Contardo, construídos por ele ao longo de muitos anos e milhares de horas de consultório em diversas partes do mundo. Dentro desse mar, navegando em suas águas profundas, encontrar a sua forma.

Começamos. Eu ia à casa do Contardo, voltava, escrevia, lia, estudava. Voltava. Trocava. E nossas trocas eram muito instigantes, ao menos pra mim. Aprendi sobre Freud, Barthes, Calvino. Ensinei meia dúzia de truques no FinalDraft. Mas foi mais. Trocamos sobre tempo de cena, conflitos, ritmo, número de tramas, personagens, locações, densidades. O quanto a gente expõe. O quanto a gente esconde. E muito sobre o nosso protagonista, sua voz, tão difícil de achar num primeiro momento, ao menos para mim (“Tem certeza de que ele não sofre aqui? Nem aqui?”. – Não! Ele é adulto!, eu escutava).


Achei que a sala de roteiro iria ser povoada por mais alguns malucos, mas em determinado momento nós dois já estávamos tão imersos naqueles personagens (e naquelas patologias todas) que era mais fácil – ou parecia menos difícil – nós dois abraçarmos a demanda e levantar as sinopses, as escaletas e as 600 páginas de roteiro sem ter que explicar tudo do começo para mais alguém. Não só levantar, como depois reescrever e reescrever (nosso ofício é a reescrita, não?).

No centro desse universo, Carlo Antonini – pra facilitar, um alter-ego do meu parceiro de sala, o que torna tudo um pouco mais complexo. Confesso que algumas vezes chamei o Carlo de Contardo e o Contardo de Carlo, ainda que eles não sejam, de fato, a mesma pessoa, ou o mesmo personagem. Em volta do Antonini, pessoas, pacientes, patologias, temas, todos complexos.

Cada episódio de Psi traz um encontro entre Carlo e um paciente (ou alguém que atravessa sua vida e se torna, de alguma maneira, paciente). Esses personagens, em geral, são um mundo sobre o qual é preciso se apropriar para escrever sobre ele. Aos poucos, eu entendia o que era “Munchausen by proxy” – uma síndrome que faz com que uma mãe induza problemas físicos ao seu filho bebê em busca de atenção; ou conhecia a vida de quem pratica vampirismo real, se alimentando do sangue alheio; estudava os detalhes e as especificidades do autismo secundário, derivado de uma surdez não diagnosticada…

E, depois, num segundo momento, é preciso também subverter o senso comum sobre esses mundos. Primeiro, entender a pedofilia, por exemplo. Depois, entender como olhar para um pedófilo sem condena-lo. Ou, ao menos entender que se o seu desejo não pode ser mudado (no sentido de que não se “cura” uma fantasia), é possível acolher aquele que luta todos os dias para controlar o próprio desejo e assim ter uma vida possível. Só diante de alguém a quem ele pode confessar esse desejo (um psicanalista) é possível trilhar um caminho para conseguir reprimi-lo.

Reconheci diversos pontos em comum entre o psicanalista e o roteirista. Um psi não pode demonstrar surpresa diante de qualquer demanda que se apresente, assim como um roteirista diante de seus personagens. É preciso olhar o mundo através dos seus olhos, sem julga-lo. E a psicanálise é essencialmente narrativa: em resumo, num consultório a busca é por reconstruir e recontar sua própria história de modo a torna-la aceitável.

Escrever, assim como analisar, nunca é um processo do qual a gente sai ileso.

O segundo almoço

Com alguns percalços e diversos momentos sublimes, depois de quase um ano do primeiro almoço, eu e Contardo tínhamos escrito a primeira temporada de Psi,13 episódios de uma hora (e seus inúmeros tratamentos). Acho que deu liga. Depois de ter colocado a primeira temporada no ar, nos perguntamos se deveríamos mudar nosso sistema de trabalho para a segunda, mas enquanto a gente não achava resposta para essa dúvida, já tínhamos escrito mais 10 episódios de uma hora para a segunda temporada.

Claro, não fazemos sozinhos. A todo tempo, o Roberto Rios e a Maria Angela, produtores da HBO, permanecem ao nosso lado, como nosso “olhar de fora”, que nos ajuda a encontrar soluções diante dos nossos impasses. Max Calligaris lê, se reúne com a gente, opina e nos ajuda a encontrar saídas visuais (além de dirigir lindamente seus episódios).

Obviamente, a segunda temporada foi mais difícil que a primeira. Não sei como. Talvez porque a gente tentou algumas histórias que não deram certo. Acho que para chegar em 10 escrevemos praticamente 15 roteiros. E depois a gente ainda teve que reescrever bastante por causa dos percalços naturais da produção. Eu sei que ao final da segunda temporada, eu me sentia esgotado. Mas junto com o esgotamento, veio a notícia de que a primeira temporada da série havia sido indicada a um prêmio importante, então mais ou menos três anos depois daquele primeiro almoço, a gente tinha um segundo almoço marcante: num hotel, em Nova Iorque com o restante da equipe principal num boas-vindas do Emmy International, que havia indicado a série como Melhor Série Dramática e o Emílio de Mello (o Carlo Antonini da vida encenada e outro grande parceiro criativo nesse processo) como Melhor Ator.


Os prêmios… A gente não deve fazer nada por eles, mas quando eles vem, dá aquela sensação boa (o certo seria escrever um outro artigo apenas sobre “prêmios”, dada a complexidade do tema, a vaidade, a competição desnecessária, mas sigamos). Nesse caso, a gente não ganhou, mas ainda mais legal do que a indicação (um prêmio em si) talvez, tenha sido o momento em que um grupo de turistas argentinos fãs da série se aproximaram pedindo para tirar fotos com o Emílio (“Carlo Antonini!”, eles gritavam) num passeio nosso por lá. Acho que já li uma estatística que diz que em Buenos Aires existe mais psicanalista que torcedor do River, então Antonini tem vários fãs na Argentina (bem como no Chile e em diversos países da América Latina, onde a série é exibida simultaneamente com o Brasil).

Para cada 3 anos de trabalho, 3 dias de glamour (quando há). Havia mais trabalho pela frente.

Finalmente, o terceiro almoço

Talvez consolidando o casamento mais longo da vida do Contardo, embarcamos nós dois mais uma vez para a escrita de outros 10 roteiros de uma hora para a terceira temporada, essa que teve a estreia na semana passada e cujo segundo episódio vai ao ar hoje. Mais uma vez, enquanto nos perguntávamos se a gente chamava mais alguém para escrever, já tínhamos escrito  tudo (vou levar o tema ao meu analista: por que essa relação é tão fechada?).

Um aspecto muito interessante de trabalhar com o Contardo é que ele nunca está satisfeito, mesmo, então a cada temporada, buscamos uma novidade. Na primeira, o conceito geral que nos trazia unidade era a ideia de um psicanalista cansado do consultório e daquilo que ele entendia como demandas “menores” dos pacientes – e depois descobríamos junto com Carlo Antonini que nenhuma demanda é menor ou comum se você for capaz de ouvir e estiver disposto a escutar. Todas as histórias são únicas. Terminávamos com um protagonista em crise, dando um tempo do consultório. Na segunda temporada, um outro conceito nos permeava. Carlo voltava ao consultório revigorado e disposto a entender qual o preço que somos capazes de pagar por nossos desejos. Todos os episódios, de alguma maneira, tocavam nesse tema – com as mais variadas respostas.

Como nunca gostamos de facilitar nossa própria vida, embarcamos na terceira temporada com uma nova busca: cada história seria contada em 2 episódios. Assim, teríamos tempo para mergulhar na vida dos nossos personagens/pacientes, abrindo as histórias para seus pontos de vista – não apenas o ponto de vista do consultório, de Carlo. O conceito geral, dessa vez: como o passado permanece presente, como cada história de vida é atravessada por demandas (in)visíveis que vem de muito tempo – que mesmo não reconhecidas, influenciam nossas vontades agora.

O resultado são 5 histórias, contadas em duas horas, divididas em 2 episódios cada. Os temas, evidentemente, continuam densos. Já na primeira história, minha pesquisa junto com o Contardo foi assistir vídeos de suicídios assistidos – prática legalizada na Europa, tema dos episódios de abertura.

Eis que chega nosso terceiro almoço. Era um sábado, ou um domingo (pois é). A gente pediu uma comida e começamos a ler os roteiros que tínhamos acabado de escrever, os dois episódios de abertura, “A Amiga Belga”.

E daí que aconteceu aquele momento mágico. Porque, no meio do processo, tem uma hora na escrita do roteiro em que tudo parece mais engenharia que literatura, mas tem outra hora que essa engenharia precisa servir à emoção. E ali eu já não estava mais enxergando a estrutura, a engenharia da coisa, mas somente a história e os personagens, e fui me envolvendo de tal modo que ao final da leitura do segundo episódio eu estava completamente emocionado. Eu chorei. Eu não sei se o Contardo chorou também, mas se não me falha a memória vi ele pegando um lenço enquanto eu ia ao banheiro dizendo que estava apertado.


Ali, naquele terceiro almoço, durante aquela leitura, era como se eu não tivesse coescrito, como se a história tivesse vida própria, e eu estava sem chão. E se tem uma coisa que me faz continuar escrevendo, são esses momentos. Acho que se um dia eu perder essa sensação, a escrita não vai mais fazer sentido. Espero que nunca perca.

***

Ontem o Contardo me ligou. Quarta feira a gente almoça de novo, para falar, pensar, debater: em caso de uma possível quarta temporada, o que a gente faria?

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A série  VIDA DE ROTEIRISTA é composta de artigos escritos pelos associados da ABRA – uma maneira de abrir espaço para a opinião do autor roteirista sobre diversas questões pertinentes à profissão. As opiniões expressas aqui são de responsabilidade do autor e podem não representar o posicionamento oficial da associação.

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